Banner Grande Aprendiz 28/06/2019
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Selena

 

Por Chico Anes

As caveiras estão sempre sorrindo, dissera minha avó. Morreu uma semana depois que fui aprovado no curso de medicina. Dona Maria Solidão, era o nome dela. Lembro-me de quando dei a notícia que me tornaria médico. Ela pegou um crânio que mantinha sobre o criado mudo e, sentada na cama, repetiu: As caveiras estão sempre sorrindo. Esculpem em maxilares descarnados o deboche final à Morte, a Senhora prepotente, obstinada em nos apodrecer. Morte que nos corrói a pele, liquefaz a carne, arruína o ego, mas que não consegue apagar o sorriso das caveiras. Esse sorriso, menino, é nossa desforra insolente entalhada em ossos.

Foi o que vovó disse. E, tão estranho quanto aquelas palavras, foi o jeito fixo de seu olhar. Pupila e íris misturadas numa cor opaca, doentia, como se  espiassem alguém além de mim que também ouvia seu discurso. Foi a primeira vez que eu realmente acreditei que ela tinha sido, conforme boato aqui em Barbacena, uma caçadora de bruxas.

Alguns dias depois, deitada naquela mesma cama, Dona Maria Solidão agonizava.  Fui me despedir. Vovó me puxou pelo braço, com uma força impossível para alguém que mantinha a foice da Morte a alguns milímetros do pescoço,  e sussurrou com voz  quebrada, como se cada frase fosse feita de vidro e trincasse quando se chocava contra meus ouvidos:

– Lembra-se do riso das caveiras, menino? Pois então, deixe que somente elas zombem da Morte. Aquele sorriso aberto é só delas, viu? Você não pode fazer isso enquanto ainda tiver carne pregada no seu rosto. Entendeu? Nem quando for doutor! A Morte não consegue fazer nada com o sorriso das caveiras, mas pega a gente se damos para caçoar dela. E cuidado com as mulheres que usam a morte como vestido. Entendeu, menino?

Achei que vovó estivesse delirando. Respondi que tinha entendido, agradeci e recebi o último abraço trêmulo.

Mas não havia entendido. Não até agora.

Hoje faz exatamente um ano desde comecei a trabalhar como médico do Sanatório de Barbacena. Sete anos inteiros se passaram para que eu pudesse compreender as palavras de vovó. Mas não me lamento. Daqui a pouco será a vez da minha própria caveira rir da Morte. Cortei os pulsos para encontrar Selena.

 

Minha recepção no Sanatório fora cercada por formalidades. Senhores de terno escuro, usando cartolas clássicas mais por tradição que por força da moda, e relógios de ouro pendurados nos coletes. Psiquiatras, cientistas, doutores renomados em lobotomias e eletroconvulsoterapia, todos fumando cachimbos ou charutos. Apresentei-me como especialista em psicofarmacologia, uma área promissora naquele início de 1950, e, desde primeiro momento, senti de meus colegas minha especialidade era para eles dispensável.  Além de mim, dois novos médicos iniciavam a residência. Ambos pareciam tão deslocados quanto eu entre aqueles homens. Abusei do fumo e do conhaque para suportar aquela noite, e a despedida foi o ponto alto das boas-vindas.

Preparei-me para ir embora. Havia bebido demais; a cabeça rodopiava, o estômago também.

Um dos doutores, um sujeitinho miúdo e de gestos enfezados, proibiu-me de partir. Disse que eu e os dois novatos ainda teríamos um ritual a cumprir, assunto sério, uma tradição primitiva que testaria meus colhões para trabalhar num asilo de loucos.

Não gostei da forma como o tipinho pronunciou a palavra ritual, mas também sabia o quanto a sociedade médica em algumas instituições era fechada, e já tinha ouvido que em alguns lugares formavam-se verdadeiras associações de iniciados,  cada uma com seus ritos de passagem.

O último convidado deixou o salão às vinte e duas horas. Ainda ficamos bebendo e fumando por mais uma hora, enquanto o tal doutor passava detalhes da missão.  Senti tudo a minha volta rodopiar e por pouco não vomitei. Imaginei que os novatos iriam recusar aquela maluquice; surpreendi-me quando a aceitaram. Tentei me recompor. Imaginava o motivo daquele ritual bizarro. Compreenderia depois, e a razão tonaria ainda mais difícil segurar o vômito.

– Claro que você pode recusar – havia dito o homenzinho. – Mas, meu caro colega, saiba que somos um grupo fechado, e as coisas que vemos e vivemos aqui devem continuar exatamente aqui. A sociedade lá fora não entenderia. Assim, esse pequeno gesto mostrará sua disposição em se unir realmente à nossa pequena aliança.

Não havia saída. Precisava daquele emprego e sabia que não duraria muito entre aqueles malucos se não me portasse como eles.

Caminhamos juntos pelos pavilhões. A natureza de nossa missão transformava aquela estrutura pesada, de paredes grossas e janelas gradeadas, ainda mais macabra. De corredores longos, ligando as diversas alas. Sua arquitetura em forma de um grande “oito”, assemelhava-se a dois elos de uma grande corrente caída do céus, depois que Mania, a deusa da Loucura, libertou-se dos grilhões que aferroavam sua mente à sanidade.

Passamos pela torre e no alto de seus vinte um metros pude ver a hora marcada no relógio com três mostradores: quinze para a meia noite. Hora errada para mexer com defuntos.

Paramos quando chegamos à porta do açougue, como era chamado o necrotério do Sanatório, e de onde saíam os cadáveres, inteiros ou aos pedaços, para servirem às aulas práticas nas faculdades de medicina do estado.

O homenzinho experimentou a fechadura do açougue com uma chave grande e enferrujada. Demorou-se um pouco. Estava começando a me animar com a inesperada dificuldade imposta pela tranca, como se ela tentasse proteger seus silenciosos inquilinos das ações barulhentas e imoderadas dos vivos lá de fora. O alívio durou pouco. Como mágica, a porta se abriu e o açougue engoliu o doutor, fazendo-o sumir na escuridão de suas câmaras.

Cruzamos todos, um a um, a passagem sombria para a casa dos mortos. O último a entrar fechou a porta. A escuridão era perfeita; apenas se ouviam as nossas respirações bêbadas. Estranhei o cheiro. Esperava o odor aquoso do formol, ou a movediça essência do éter, mas meu nariz identificou aquele cheiro como terra molhada, abafada pelo mofo. Enfiei as mãos nos bolsos instintivamente, protegendo-as, com receio de tocar em fungos que já imaginava escorrerem pelas paredes.

Um fio de luz iluminou o longo corredor. O nosso anfitrião trouxera uma lanterna de bolso e preferiu usá-la a ligar o interruptor. Navegamos em fila, espremidos naquele minúsculo bote de luz, temerosos de cair e sermos tragados pelas sombras ondeantes do pavoroso açougue.

Caminhamos lentamente, nossos passos cadenciados pelo tique-taque de um relógio supérfluo, até chegarmos à sala túmulo, identificada unicamente com uma placa escrita morgue. Estava destrancada. Entramos todos juntos, ainda mais espremidos, como se a luz ali dentro encontrasse dificuldade em se expandir, esvaziando nosso já miúdo bote de claridade.

O ritual era simples. Cada um de nós escolheria uma gaveta. Esta seria aberta e o cadáver posto para fora. Independentemente do sexo do morto, da idade, das condições – se mutilado ou deteriorado – nós deveríamos beijá-lo. Não desses beijinhos de lado, dados com as bochechas quando se cumprimenta alguém. Um beijo de verdade, de boca, com duração marcada pelo nosso louco doutor; dez segundos, no mínimo! Por um instante lembrei-me de Edgar Alan Poe e seu conto onde os pacientes de um hospício fazem uma rebelião e trancam seus doutores em celas, assumindo os lugares destes. Será que não estariam os verdadeiros médicos do Sanatório presos? Será que não seguíamos a um lunático que deveria estar enjaulado?

A primeira gaveta foi puxada. Descobriu-se a mortalha sobre o cadáver: um velho, pele arroxeada, a falta da dentadura repuxando ainda mais as rugas para dentro da boca mirrada, oca. Um dos novatos se debruçou sobre o corpo hirto e o beijou. Marquei o tempo pelos batimentos do meu coração, mas creio que me enganei, ou os segundos ali dentro tinham a falta de urgência dos defuntos. Como demorou aquele beijo!

O próximo morto, muito provavelmente, havia caído de grande altura. O rosto estava desfigurado. Placas de sangue ressequidas grudavam-lhe na pele como enormes e repulsivos besouros. Um dos olhos não podia ser fechado; uma desagradável ironia: uma última piscadela para um último beijo…

Minhas têmporas latejavam, a cabeça doía. Queria fugir dali, escapulir daquela loucura. Não suportaria ver uma das gavetas serem abertas e surgir lá de dentro uma criança. Todo o álcool que eu havia ingerido evaporara-se. Toda a embriaguez era agora produzida pelo medo.

Chegara a minha vez.

Quando agarrei a alavanca para abrir a gaveta pude ouvir claramente minha avó: A morte pode não conseguir fazer nada com o sorriso das caveiras, mas pega a gente se damos para caçoar dela. Entendeu, menino?

Estremeci. O som de suas palavras veio tão límpido e inconfundível que por um momento tive certeza que ela estaria dentro daquele túmulo provisório, esperando que eu o destampasse para então se levantar e me apontar o dedo: Entendeu, menino?

Em ocasiões assim, é impossível dizer o que ocorre com o mecanismo que regula nosso discernimento. Eu não queria abrir a maldita gaveta, meu corpo não queria, meu espírito também não, tampouco queria o meu passado. Mas ainda assim eu a abri.

Quando puxei a mortalha, minha respiração parou.

Se não fossem os fios do cérebro, que transmitem ordens independentes de nossa vontade, eu teria me asfixiado, pois meus pulmões estavam afogados em assombro. Meus companheiros também não puderam segurar o espanto, e ouvi cada qual grunhindo uma exclamação diferente. Deitada, como se dormisse um agradável sono mimado pela fresca aragem das tardes, estava a mais bela mulher que eu já vira. Definitivamente não parecia ser uma paciente daquele hospício. A loucura, se a tivesse atacado, não deixara nenhuma marca externa. Sua face rosada parecia rejeitar a morte. O nariz, os olhos, as orelhas, todos suaves adornos, decoravam o rosto como se não houvessem nascido ali; pequenas contas preciosas delicadamente costuradas à pele. Os cabelos negros e lisos serviam-na como um travesseiro de seda. A boca, levemente aberta, parecia aguardar pelo beijo – por milhares deles. Uma boca privada tão precocemente de desejos para os quais fora modelada.

Fechei os olhos e a beijei.

Desconheço o motivo de, naquele momento, não ter estranhado a maciez da carne, de não ter suspeitado do calor dos lábios, de ter deixado minha língua satisfazer sua vontade e invadir a boca semiaberta daquela mulher, tateando seus contornos, procurando pela outra língua inerte. Tampouco me surpreendi com saliva morna, com o perfume lascivo das glândulas jovens e fêmeas. Nem mesmo percebi que abracei a morta, levantei-a da maca, e sem desgrudar de seus lábios, trouxe-a para meu peito. Reparei somente, sentindo a pressão em minhas calças, que não fora apenas minha língua que se excitara.

O sussurro de minha avó tirou-me do êxtase. Ouvi-a novamente falar sobre o sorriso das caveiras. Tive a impressão que podia sentir o sorriso da mulher em meus braços.

Abri os olhos. Fiz esse gesto lentamente, em etapas curtas, como a criança que sonda, culpada, uma gravura obscena.

Gritei.

O defunto me encarava com os olhos arregalados.

O grito deve ter assustado muito meus companheiros, que viraram as costas e fugiram. Não os culpo. Assistir alguém beijar tão avidamente – apaixonadamente – uma morta deve tê-los deixado nauseabundos.

Quanto a mim, acho que escorreguei. Caí no chão, levando o cadáver comigo, bati a cabeça e desmaiei.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando acordei ainda era noite. O defunto havia caído ao meu lado, o braço enlaçando meu pescoço. Havíamos dormido como amantes, extenuados após satisfazer os desejos da carne numa longa noite de sexo.

Levantei-me de forma brusca, desnorteado pela escuridão, e saí correndo, apalpando as paredes, arranhando os dedos, sem ao menos um beijo de despedida.

No dia seguinte, os corredores acinzentados do Sanatório noticiavam a invasão do necrotério por vândalos que haviam jogado um dos cadáveres ao chão. Falava-se de brincadeira de mau gosto de alguns jovens locais; nenhum dos empregados suspeitava que aquilo era obra de um de seus respeitáveis doutores.

Eu estava na refeitório, bebendo litros de café amargo para tentar sumir com a ardência no estômago e o inusitado gosto de comida tostada na boca, quando um dos novatos da aventura noturna chegou e sentou-se à minha mesa sem me cumprimentar. Apenas perguntou:

– Por que você gritou daquele jeito?

– Queria pregar um susto naquele doutorzinho.

O colega ainda me olhou desconfiado antes de se levantar e retirar-se sem dizer qualquer palavra. Eu não contei nada sobre os olhos abertos da mulher, fitando os meus como se estivesse viva, querendo mais do meu beijo. E, sob a claridade do dia, eu mesmo não acreditava mais no que vira. Aquilo havia sido um engano, apenas isso.

O novato deu alguns passos e retornou. Inclinou o corpo em minha direção e sussurrou, de forma que ninguém mais no refeitório pudesse ouvir, mas claro o bastante para que eu não tivesse dúvidas sobre seu julgamento:

– Ou você é louco, igualzinho a esses dementes que são tratados aqui, ou o homem com o estômago mais forte que já conheci. Meu caro, eu jamais beijaria aquele cadáver completamente queimado. Poderia ser expulso desta instituição, mas não tocaria minha boca naqueles lábios chamuscados, naquela velha decrépita… Não mesmo!

Ergueu-se e foi embora antes que eu pudesse agarrar-lhe os braços e comentar que o louco ali, sem dúvidas, era ele.

Passei a manhã meditando sobre as palavras daquele sujeito. Ao final da tarde, com as sombras da noite inundando a imaginação, já até admitia que talvez ele pudesse ter razão: como explicar o gosto de queimado que eu tinha na boca e que insistia em permanecer, apesar das dezenas de xícaras de café? Mas eu vira a mulher! Sentira sua carne jovem!

Voltei ao açougue.

Inventei que estava escrevendo um artigo para o jornal de medicina sobre a invasão dos vândalos e o desrespeito dos leigos com os pacientes sofredores de distúrbios mentais; mesmo depois de mortos. Sondei até descobrir que o cadáver encontrado no chão era de uma velha senhora, oitenta anos, morta dois dias antes de eu chegar ao Sanatório, cozida na própria cama enquanto dormia, após seu querido gatinho de estimação, mantido em segredo das autoridades do asilo, ter derrubado a vela acesa sobre a cabeceira para afastar desgraças.

Não havia nenhuma garota. Nenhuma jovem mulher.

Saí do açougue direto para um bar da cidade. Pedi um copo liso de conhaque. Tomei-o como se fosse suco. Não podia ser. Simplesmente, não podia ser!

Eu tinha certeza de ter visto aquela mulher. Mais que isso, sentira seu calor, a suavidade de sua carne, seu hálito.

Pedi outra dose; completa.

O que eu estava dizendo? Calor, ternura, hálito… em cadáveres! O que eu estava dizendo! Mas… Mas não era uma velha que beijei. Era ela. Ela estava lá! Não era a velha. Não, não era! Vomitei no balcão todo o horror represado na noite anterior.

Na manhã seguinte, não fui trabalhar; péssima maneira de se começar uma carreira. Se um novo dia amanhecia para o Sanatório e seus habitantes, para mim o tempo fora aprisionado entre os tique-taques cadenciados do relógio supérfluo do açougue.

Andei pelas subidas e descidas de Barbacena, e decidi consultar os arquivos na biblioteca da prefeitura. Pesquisei, procurei pistas, investiguei realidades esquecidas de antigos cidadãos, dramas cômicos ou fatais, mas não encontrei nada. Nada! Quem era ela, a linda jovem de meu frenesi?

No dia seguinte, e nos próximos, ocupei-me em consultar os registros do Sanatório, das prefeituras vizinhas. A cada nova frustração, nova bebedeira. Trazia sempre minha própria garrafa, escondida em saco de papel.

A busca pela identidade daquela mulher consumia minha atenção. Gastava os dias folheando registros, conversando com funcionários do asilo, pesquisando conversas largadas sobre os balcões dos bares. Meu trabalho como médico era feito com desleixo, o que começou a virar comentário entre os colegas. Os dois novatos, companheiros da invasão ao açougue, não se preocuparam em saber o que acontecia; buscavam distância de quem consideravam doido. Eu não me importava. Apenas tinha de saber quem era ela, e intuía que seu último dia fora vivido naquele Sanatório.  Tinha que encontrá-la.

Por quê?

Talvez nunca mais consigamos fechar certas portas abertas pelo delírio, travadas pelo vício. E era vício o que me movia. Talvez nunca consigamos fechar essas portas, mas é preciso tentar, e se tiver de cruzar novamente o umbral, devemos fazê-lo conscientemente, não num estado sonambúlico.

Após mais uma noite de bebidas, resolvi pesquisar alguns papéis no Sanatório. Cheguei e fui direto para o banheiro. Lavava a cabeça na pia tentando afastar o enjôo e o vômito, quando um servente entrou para limpar as privadas. Diziam que o velho devia ter sido transferido de algum manicômio judiciário, e que certamente já devia ter matado uma dezena de homens. Lenda, como quase toda história ali. Foi com os olhos de lunático que ele me encarou e sorriu. Retribuí com um aceno de mão; mais uma dispensa que uma saudação. O homem não entendeu. Ou fingiu que não. Aproximou-se e perguntou o que estava se passando comigo. Não sei por que motivo não estranhei aquela pergunta, feita sem cerimônias por alguém que não me conhecia. Respondi. Talvez precisasse desabafar, e aquele doido servia bem ao propósito. Disse que estava perdendo o juízo por causa de uma mulher, a mais bela de todas, a quem só vira uma vez, por curto tempo, e que depois daquele rápido primeiro encontro ela sumira como um fantasma. Por isso bebia. Empolguei-me falando dela. Descrevi seus traços, seus cabelos, a forma como beijava. Já não havia mais banheiro nem velho maluco. Estava de volta à noite no açougue, sentindo o intenso desejo por aquele corpo sensual, mas inerte.

Voltei ao banheiro arrastado por mãos rijas que me sacudiam, cravadas em meu braço como garras de uma ave de rapina. Assustei-me com a expressão do velho. Os olhos estavam prestes a estourarem, um fio de baba lhe escorria pelo queixo, e de sua boca saía um guincho mais parecido com o grito de um rato esmagado pela ratoeira que a voz de um homem. Ainda assim, modulada entre os chiados, pude discernir as palavras do louco: o senhor viu Selena! O senhor também viu Selena! Vá embora, doutor! Suma daqui, ou ela vai levar o sinhozinho para sempre! Vá embora amanhã mesmo!

Arranquei meu braço das unhas do velho e saí correndo do banheiro. Minha cabeça rodava na mesma velocidade do estômago. Precisava de ar puro.

Aquelas palavras me seguiram. Ecoaram em meus ouvidos como se eu ainda estivesse entre as paredes fantasmagoricamente acústicas do banheiro; no início toda a frase, mas, depois, como acontecem a todos os ecos, apenas reverberavam os sons mais intensos: Selena! Selena! Selena!

Enfim um nome.

Voltei às buscas com novo ímpeto. Agora tinha um nome.

Não demorou muito encontrar Selena e sua história. E, entre as linhas de sua desgraça, também o nome de Dona Maria Solidão.

Diziam que ela veio do estrangeiro, Cuba ou Venezuela, outros que era do interior da Bahia ou Minas – nisso a história era imprecisa – para trabalhar como enfermeira neste Sanatório. Selena se destacava pela dedicação à profissão e mais ainda por sua de beleza incomum. Era mulher de costumes exóticos. Dizia-se que praticava as estranhas religiões das ilhas do Caribe com seus rituais secretos e danças sensuais, e que conhecia as poderosas mandingas das feiticeiras do interior – nisso também a história era imprecisa. De resto, tudo eram fatos: o Sanatório foi criado por volta de 1900, no lugar onde antes existia um hospital para tratamento de tuberculose. No passado, aquelas terras eram conhecidas como a “Fazenda da Caveira” – e a lembrança de vovó e seu crânio sorridente se interpuseram entre meus olhos e o documento. Terras que, pelos registros históricos, pertenciam a Joaquim Silvério dos Reis, o homem que denunciou o movimento dos Inconfidentes e levou Tiradentes para a forca. Terras, por si só, com histórias de traição e morte. Selena foi a primeira mulher admitida no Sanatório, em 1925. Logo se tornou membro do conselho, deixou a enfermagem e começou a participar da administração e dos negócios do hospício, o que incluía a venda de cadáveres para as diversas universidades de medicina espalhadas pelo estado. E em pouco tempo, os negócios prosperaram. O volume de corpos aumentava, assim como crescia a onda de pacientes, chegados em montes nos “trens dos loucos” que aportavam na Estação Ferroviária de Barbacena. Selena também tornou-se responsável pelos laboratórios do hospício e teve muitos, muitos amantes, alguns deles respeitáveis doutores e personalidades da região. Despertou a inveja das mulheres e o desejo dos homens. Fácil deduzir daí um espírito inquieto, livre, impossível de ser domado, muito menos possuído.

A morte se Selena aconteceu numa sexta-feira à noite – e nisso a história também era bastante precisa. A casa de Selena, uma confortável chácara doada pelo Sanatório aos redores do morro da Caveira, incendiou-se. Selena não conseguiu escapar das chamas. A polícia deduziu que Selena tinha se drogado e desfalecido, pois as portas não estavam trancadas e a fuga das labaredas seria possível para uma pessoa em estado normal. Muito provavelmente ela havia praticado alguns ritos pagãos, usando o fogo e psicotrópicos. Foram encontrados restos de pavios de velas, adagas com cabo esculpidos em forma do diabo e seringas chamuscadas. O resultado: uma tremenda infelicidade.

O que sobrou de Selena foi enterrado no Cemitério do Cascalho, junto com os quase vinte mil corpos de doentes mentais que ela deveria ter ajudado a cuidar, mas que como foi apurado dias depois, era exatamente o contrário que a diabólica mulher fazia. O escândalo veio à público com documentos encontrados por uma senhora que caminhava perto do morro da Caveira, escondidos debaixo de um pequeno altar de pedras. Entre eles havia um diário relatando o uso de pacientes do Sanatório em rituais de magia, a morte horrível por cozimento em água fervente, o consumo da carne humana em banquetes e orgias, e a técnica para embranquecer os ossos para então se vender o esqueleto num mercado cada vez mais ávido por esse tipo de produto e usar o dinheiro para desviar a atenção de autoridades locais. Para a consternação dos habitantes da cidade, os nomes dos outros frequentadores das missas satânicas estavam escritos em códigos. Coube aos cidadãos apenas julgar se aquele diário era produto de uma mente doentia, ou conviver em silêncio com respeitáveis vizinhos que talvez tivessem participado daquelas aberrações.

A senhora que havia entregado o diário às autoridades era Maria Solidão.

Alguns meses depois da morte de Selena, dois médicos do Sanatório, um rico proprietário de fazendas e um político também morreram devido a incêndios. Não houve provas de conexões entre as mortes. O processo foi arquivado.

Reli o documento várias vezes. Mas, por mais que a história toda tivesse me impressionado, nada me abalou tanto quanto aquela foto.

Era ela! Sim, era ela! Selena, a mulher que beijei no açougue! Como era possível?

Não voltei para casa naquela noite. Tampouco bebi. Comecei a temer os duendes que viviam no fundo das garrafas de conhaque, malditos entes, capazes de enlouquecer um homem com suas beberagens alucinógenas. Vaguei por onde existiam pessoas e luz, bastante luz, receava a solidão e o escuro, evitava entrar novamente no pequeno bote de claridade que navegava à deriva por corredores imprevisíveis.

E um sentimento pingava em meu estômago como ácido. Uma certeza: Dona Maria Solidão, uma caçadora de bruxas… Fora vovó. Vovó tinha queimado Selena numa fogueira.

No dia seguinte voltei ao trabalho decidido a esquecer aquele incidente. Havia caminhado até o sol raiar. A madrugada e o frio da Serra da Mantiqueira tinham rearranjado minhas ideias numa ordem mais tolerável. Não queria correr o risco de desalinhá-las outra vez. Não podia correr o risco de não conseguir reaver mais uma vez o juízo. Dediquei-me aos meus afazeres, a recuperar o tempo perdido.

A primeira semana foi difícil. Meus pensamentos fugiam dos pacientes e corriam para Selena. Beijei-a centenas de vezes antes de dormir, enquanto pílulas brancas de barbitúricos desapareciam garganta abaixo como fantasmas.

Um fantasma.

E as noites, eu as dormia sempre com a luz acesa. Tinha medo de ser beijado no escuro, abrir os olhos e não… não… Não ver Selena!

As semanas se acumularam em meses.

Preparava-me para uma cirurgia. Entretido no texto de um livro sobre a técnica de lobotomia, fiquei até mais tarde em minha sala de trabalho. Não notei as vozes sumirem, os passos se afastarem, o silêncio cair nos corredores juntamente com a noite. Estava sozinho naquele ala, talvez sozinho em todo o Sanatório. Um calafrio saturou meu corpo. Meu coração reproduzia o ritmo descontrolado da noite no açougue. Minha garganta secou. Meus dentes rilhavam como se eu estivesse sendo eletrocutado. Selena estava ali.

Eu sabia. Ela estava ali. Olhei de relance para a porta. Não vi nada. Juntei minhas coisas e arrastei-me para sair da sala. Cheguei até a soleira e espiei. Lá fora, a escuridão. Iria precisar mais uma vez de uma embarcação de luz, mas não havia nenhuma, somente o rio negro de sombras. Teria de nadar de peito aberto. O corredor estava aparentemente vazio, quieto, como convém às armadilhas eficazes. Decidi deixar a lâmpada da minha sala acesa e caminhar usando as luzes daquele pequenino sol. O interruptor mais próximo estava a uns bons metros à frente. Agarrei meus livros, dei o primeiro passo. O segundo. O terceiro. O pequenino sol parecia se pôr às minhas costas, e a cada novo passo o corredor entardecia. Andei mais alguns metros e parei. Estava ficando escuro demais. Olhei para trás, procurando o refúgio das luzes.

Foi quando eu a vi. Selena. Era ela. Selena. Entrando na sala iluminada. Não vi sua face, apenas o cabelo esvoaçante, deixado para trás pelo corpo que sumia sala adentro, embarcando em meu frágil bote de luminosidade. Era ela. Reconheceria até mesmo um fiapo daquele cabelo. Selena.

Esperei, estático, sem conseguir mover-me para a fuga. Mesmo sem a cadência dos tique-taques ociosos, pude pressentir o avanço de um clímax. Ela se preparava para sair da sala. Enxuguei o suor que me pingava nos olhos. As mãos de Selena boiaram para fora da porta. Virei-me para correr. Não mais me importava o negrume à minha frente, o abismo possível em um corredor invadido pelas trevas. Virei-me para correr o mais rápido que pudesse, preparando as pernas para impulsão olímpica. Virei-me para encarar Selena, parada à minha frente, no escuro, com os braços abertos, sorrindo por um beijo.

 

(***)

 

Voltei a procurar o velho servente.

Depois que acordei naquele corredor, com as calças molhadas pelo prazer, a boca levemente entorpecida, e imagens oníricas que sugeriam o melhor sexo que já fizera, tive de tornar a procurar o velho.

Encontrei-o no mesmo banheiro. Foi minha vez de agarrá-lo pelo braço. Sacudi o homem, gritando por respostas. Não perguntei quem era Selena. Não. Já a conhecia. Queria saber por que ele dissera que eu também vira Selena. Queria saber quem mais a vira.

O velho contou sobre uma carta, escrita por um rapaz, outro médico como eu, narrando seu encontro com aquela bruxa, a forma como fora seduzido, os encontros quiméricos que tiveram, e, por fim, a completa agonia da pobre alma em não conseguir viver todas as suas horas ao lado do fantasma sedutor. A narrativa terminava com o suicídio do coitado, única via que encontrou para unir-se para sempre com Selena. Perguntei-lhe como sabia de tal carta. O homem respondeu que aquela confissão fora  endereçada a ele: o rapaz era seu filho.

O velho começou a chorar. Larguei seu braço e me desculpei. Ele disse estar ali desde a morte do filho. Arranjara aquele emprego para proteger os filhos de outros pobres pais como ele. Disse também que até nisso falhara; depois de seu filho, ainda houve outro.

Contou também que sabia quem eu era. Conhecera minha avó. Eles tinham juntos queimado aquela bruxa até a morte, Selena e outras como ela que assombravam aquela região de abandono e dor. As outras bruxas haviam ido para o inferno, mas Selena… Selena descobrira uma porta deixada aberta pelo diabo naquele morro da caveira, e vinha zombar daqueles que acreditaram poder destruí-la.

O velho me pediu perdão. Disse que deveria ter me alertado antes do primeiro encontro, mas não imaginou que a bruxa me beijaria logo no dia de minha chegada. Chorou mais uma vez e se desculpou em voz alta; dessa vez, para Maria Solidão.

Deixei o pobre homem e fui para casa. Dormi pesadamente, com as luzes apagadas, como há muito não fazia.

Na manhã seguinte encontraram o corpo do velho no banheiro. Havia dúvidas sobre a forma da morte, mas tudo apontava para um acidente, ou suicídio; um estranho suicídio. O corpo estava pendurado na janela basculante, a cabeça pendendo para o lado de fora, como se o infeliz tivesse tentado sair, escorregado e se enforcado. Mas por que tentar sair por uma janela que visivelmente não permitia a passagem de todo o corpo? Ainda mais com a porta do banheiro sem trancas?

Por isso a hipótese do suicídio.

Mas eu sabia. Fora Selena. A porta estava destrancada sim, mas ela estava lá, impedindo a passagem.

Entristeci-me pelo velho, mas também senti ciúmes. Selena havia aparecido para ele, para o filho dele, e para outros…

Passei a frequentar o Sanatório à noite. Vagava sozinho pelas alas fedendo a urina e formol, cruzava os corredores escuros, visitava banheiros e dormia em salas de tratamento. Lamentava ter fugido e perdido os sentidos da última vez que vira Selena. Senti-me como um adolescente que corre da garota de quem espera uma declaração, um beijo, massagens de mãos cegas. Pedi desculpas a ela. Prometi não mais fugir. Chorei sozinho, encolhido nas quinas dos corredores.

E uma noite, quando o cansaço havia me desacordado e as lágrimas secavam em meu rosto, ela apareceu.

 

(***)

 

Estou sentado no chão frio do açougue, aos pés da gaveta onde conheci o amor de minha vida. O bisturi já rasgou minhas veias.

Escrevi esta narrativa para avisar os futuros pretendentes. Espero que a leiam e sintam o medo da opção pela morte. Não sou um caçador como Dona Maria Solidão. Não pretendo salvar nenhum filho dos braços de Selena. Só não quero que outros sigam atrás de mim. Quero ser o último. Quero Selena só minha.

Perdoe-me vovó, por ir deitar-me com sua inimiga. Mas se a senhora a tivesse conhecido melhor…  minha doce Selena…

Os olhos são os primeiros a delatar a morte. Vejo o reflexo de meus olhos nos olhos de Selena. Sei que em breve estaremos juntos.

Se estou triste?

Claro que não.

Olhe bem para o meu rosto.

Olhe bem.

Aproxime-se.

Ainda mais.

Veja meu sorriso através da carne. Veja o eterno deboche de meus ossos à Morte. Veja meu sorriso eterno para Selena.

 

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Todos os direitos reservados

 

Sobre o autor

Chico Anes nasceu em  Barbacena, Minas Gerais. É autor dos romances “As duas vidas e meia de Demian Liber”, “O Sonho de Eva” e “Pirapato – O menino sem alma”.Escreve também contos de ficção fantástica, vários deles publicados em diversas antologias. Filósofo de fogueira, busca o caminho que tenha coração, o elixir da longa vida e a pedra filosofal que transmuta o “homem de chumbo” em “Homem de Ouro”. Sabe onde tudo isso se encontra, mas saber onde está o peixe não quer dizer pescá-lo. Por isso, joga insistentemente o anzol nas águas profundas da mente. Afinal, “a verdadeira transmutação hermética é uma arte mental”.

 

 

 

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