• Saiba como funciona o Centro de Acolhimento Terapêutico de Barbacena, que recebe os últimos 14 pacientes que estavam institucionalizados

    O ambiente foi planejado para oferecer assistência contínua, mas com rotina mais próxima de um lar, já que todos os moradores são idosos e muitos com comorbidades e que necessitam de cuidados permanentes

    01/06/2026
    Foto: ASCOM/INTS

    No último dia 25/05, Barbacena inaugurou o o Centro de Acolhimento Terapêutico (CAT), um momento importante para a saúde mental no Brasil. A unidade passa a acolher os 14 últimos moradores que permaneciam no antigo Hospital Colônia de Barbacena, encerrado definitivamente na mesma data após mais de um século de funcionamento.

    A gestão do CAT será realizada em parceria entre o município e o Consórcio ICISMEP, sendo o INTS — Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde responsável pela operacionalização dos atendimentos e das ações desenvolvidas na unidade.

    A transferência dos moradores consolida a substituição do modelo de internação e isolamento por uma proposta de cuidado em liberdade.

    Com o fechamento definitivo das atividades, os últimos moradores — todos idosos, alguns com comorbidades e necessidade de cuidados permanentes — passam a viver em uma casa localizada na área urbana, em um ambiente planejado para oferecer assistência contínua, mas com rotina mais próxima de um lar.

    A Coordenadora de Projetos e gestora da Casa, Kênya Costa, destaca que a proposta do CAT é romper com a lógica hospitalar e construir, diariamente, uma nova forma de cuidado. “Esse fechamento da porta do manicômio é a abertura das portas da liberdade. O nosso grande desafio é mudar a lógica de uma rotina hospitalar para uma casa. Eles não estão mais em um hospital, eles estão em casa. Então, todo cuidado, toda atenção e todo gesto precisam ser pensados a partir dessa perspectiva de acolhimento, respeito e reparação”, afirma.

    O Centro de Acolhimento Terapêutico contará com 28 colaboradores, formando uma equipe multidisciplinar composta por profissionais de enfermagem, fisioterapia, nutrição, técnicos de enfermagem, cuidadores e auxiliares de serviços gerais. A estrutura foi organizada para atender moradores que necessitam de acompanhamento 24 horas, com cuidado integral, humanizado e individualizado.

    Segundo Kênya Costa, um dos principais objetivos neste primeiro momento é transformar a rotina dos moradores, respeitando seus desejos, limites e necessidades. “A pergunta que a equipe precisa fazer todos os dias é: ‘eu faria isso na minha casa?’. Se a pessoa não quer tomar banho pela manhã, em um dia frio de Barbacena, por que insistir nessa lógica? Podemos adaptar para o meio do dia, para o final da tarde, para quando fizer mais sentido. Isso é humanizar o atendimento. É reconhecer que estamos falando de moradores, de pessoas que passaram por uma história muito dura e que agora precisam ser acolhidas de outra forma”, explica.

    A gestora também ressalta que o trabalho envolve todos os detalhes da rotina, desde os cuidados em saúde até a ambiência, a alimentação, a lavanderia, a limpeza, a medicação e a construção de um espaço que seja, de fato, uma casa. “Eu me sinto parte da história. É um grande desafio, mas também é uma oportunidade de buscar alguma forma de reparação para esses moradores. A nossa dívida com eles é incalculável”, completa Kênya.

    Ana Clara Teles Meytre, gerente de Serviços do INTS, reforça que a atuação do Instituto no novo serviço está diretamente ligada à responsabilidade de contribuir para a reconstrução de trajetórias marcadas, por muitos anos, pela exclusão. “Para nós, do INTS, é extremamente gratificante fazer parte desse processo por meio da operação do Centro de Acolhimento Terapêutico, que hoje recebe os 14 últimos moradores que permaneciam institucionalizados em Barbacena. Participar dessa transição significa assumir um compromisso com o cuidado em liberdade e com a reconstrução de histórias que, por muitos anos, foram marcadas pela exclusão e pelo isolamento”, afirma.

    O antigo Hospital Colônia permanece como um dos capítulos mais sensíveis da história da saúde mental brasileira. No mesmo complexo, o Museu da Loucura seguirá em funcionamento, preservando documentos, fotografias, objetos e registros que ajudam a contar a trajetória das pessoas que passaram pela instituição e a manter viva a reflexão sobre os impactos do modelo manicomial.

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