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Pretérito

Por Cristina Puygcerver

Eu respirei fundo olhando a porta à minha frente. Voltei a querer revirar o que havia ali. Eu precisava.

Sabia que ela estava lá, sempre estava. Ela sempre fica à espera de uma oportunidade de sair.

Não precisei bater duas vezes para que ela escancarasse a porta. Ela sorriu ao me ver, me olhou de cima a baixo, conhecia cada pequeno motivo da minha volta, cada pedaço de mim. Logo agarrou-me pelo braço e me puxou para dentro.

Lá dentro tinha cheiro de infância, de risada alta, de filme visto mil vezes, cheiro de livro relido, livro escrito. Cheiro de vida. Mais a frente, aquelas partes quebradas, tão bem conhecidas, jogadas ao chão, pareciam ocupar um lugar maior e bem ao lado havia aquela janela florida que sempre deixava a luz dos finais de tarde entrar à vontade.

Ela me levou até a mesa, parou à minha frente para me observar. Ela tinha metade do meu tamanho, um sorriso de quem perdeu um dente de leite há pouco tempo , mas não ligava para a falta dele.

Ela sabia o que me levava ali sem eu precisar dizer sequer uma palavra. Ela me conhecia. Ela nos conhecia.

Eu me sentei e ela logo fez o mesmo e segurou minha mão.  Aquela mão pequenina que cabia dentro da minha.  Olhou minhas tatuagens, viu a tinta em meus cabelos. As mudanças externas que refletiam as internas. Nossos olhos continuam os mesmos pelo menos.

Olhei em volta mais uma vez, até o menor detalhe daquele lugar tinha um motivo, um “porquê”, uma história, um significado, e eu sabia de todos eles. Eu sentia todos eles. Senti as lágrimas chegarem e ela apertou minha mão. Ela me conhece, ainda somos a mesma, só um pouco maior.

Apesar de não haver necessidade de palavras para que nos entendêssemos, ela, enfim falou. E era exatamente o que eu precisava ouvir:

– Eu te perdoo. Perdoo por ter tido medo, por não ter feito e te perdoo pelo que fez. Eu perdoo as cicatrizes que surgiram em nosso coração, você não tem culpa pelo mundo. Mas, acima de tudo, eu agradeço. Agradeço por não ter me deixado para trás, por ter lutado por nossos sonhos e por nunca ter desistido de nós. Eu agradeço por ter mudado, mas nunca deixado de ser a mesma.  Se perdoe também, não precisa saber de tudo. Não seja tão cruel com você agora, já vimos muitas tempestades e continuamos a amar a chuva, então, vá com calma, ainda é só o início. Você cresceu e tenho orgulho do que nos tornamos.

Então eu abracei meu passado com respeito pelo que já foi, mas não é mais e me senti abraçada de volta pelo meu próprio perdão.

Sobre a autora

Mineira, de 19 anos, Cristina é amante de todos os tipos de arte, principalmente os manuais como desenhos e esculturas.

Atualmente estudando Publicidade e propaganda, sempre foi apaixonada por tudo que envolva criatividade, talvez culpa dos livros e filmes de histórias fantásticas e cheias de magia -e uma boa pitada de terror- que a cercaram desde a infância fazendo-a crescer com uma grande e fértil imaginação.

Cristina descobriu a paixão pela escrita muito cedo e aos 13 anos começou seu primeiro livro não parando desde então.

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