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Pensamentos pecaminosos no 339

Por Thiago Rossi

Caminhava João Carlos até a entrada do prédio Santa Gertrudes. O jovem rapaz de vinte e oito anos havia acabado de se mudar para a cidade. Não fazia muito, ele havia se formado em direito e começava a dar os seus primeiros passos na carreira.

Defronte ao 338, o apartamento de João, estava o 339, domicílio de Cláudia Veloso, bela moça de olhos verdes e longos cabelos negros, e que parecia ter entre vinte e nove a trinta anos. Pouco se sabia sobre ela, raramente era vista fora de seu apartamento. Contudo, naquele dia, chegando à sua residência, João presenciou aquela bela mulher enfiada num sensual vestido negro, extremamente justo, e recostada à entrada do 339.

            Cláudia, que mais parecia o pecado encarnado, observou João, que ficara imóvel e boquiaberto com aquele ser à sua frente. E enquanto acendia um cigarro, disse ao rapaz:

            — Olá.

            Bastou ela proferir sensualmente essa palavra, para que o sangue de João incendiasse num mar de desejo. Jovem, e com os hormônios em fúria, ele resolveu conversar com a moça.

            — Olá… Senhorita…

            — Senhorita?! Ora, vamos parar com isso bonitão, está parecendo o meu pai. Me chame de Claudinha.

            — Então… Olá, Claudinha. Como vai? Será que posso te ajudar em alguma coisa?

            — Claro, em muitas. Preciso de alguém para arrumar a minha pia, será que você entende do serviço?

            — Posso tentar.

            — Então entre, vamos ver como se sai.

            João entrou, e já se imaginava nos braços e caprichos de Claudinha. Contudo havia algo que João não sabia, e que também não fora revelado sobre a “fogosa Claudinha”. O fato era que a moça sofria de dupla personalidade. Algumas vezes ela era Claudinha, sensual, ninfomaníaca e sem nenhum pudor. Outras vezes, esta personagem pecaminosa dava lugar à Dona Cláudia, uma verdadeira “urubu de igreja”, que se vestia de preto e pregava o extremismo do pudor e dos bons costumes. Outra coisa que João não sabia, era que Dona Cláudia era casada com um major do exército, o senhor Romualdo Cardoso Veloso, conhecido como o mais rabugento e linha-dura das Forças Armadas.

            O então encanador, fora até a cozinha, precisava ao menos fingir que realmente estava lá para arrumar uma pia, que na verdade, não estava defeituosa. Claudinha sumira dentro do quarto. Poucos meses na cidade, e João iria passar a tarde com uma das mais belas mulheres que ele já vira. Colocou-se a imaginar as reuniões com seus ex-colegas de faculdade, e como eles não iriam acreditar na sorte do novo advogado. Interrompendo seus pensamentos de “glória e êxtase”, Claudinha apareceu à porta da cozinha, num baby-dool vermelho, encoberto apenas por um hobby semi-aberto, dizendo:

            — E então? Se já acabou o concerto, deixe-me pagar pelo serviço.

            João ficou louco, correu para abraçar a moça. Beijava-lhe o pescoço, mas quando sua mão segurou mais embaixo, ousando apalpar lugares mais voluptuosos, um agudo grito rasgou o ar.

            — Tarado! Tarado! — Esbravejava Claudinha, ou melhor dizendo, Dona Cláudia.

            João, sem compreender nada daquilo, apenas pedia calma, enquanto ia se afastando da louca mulher. Não conseguia entender o que estava acontecendo.

            — Calma Claudinha, foi você quem ofereceu.

            — Claudinha? Me chame de Dona Cláudia, seu abusa… — parou por um momento —Espere, você disse Claudinha?

            — Sim. Foi você quem disse que eu poderia te chamar assim, estava com uma pia estragada e queria me agradecer.

            — Ai meu Deus! — Dizia Dona Cláudia, enquanto colocava a mão sobre o peito e andava até a sala — Pensei que ela já tivesse ido embora.

            — Ela quem? — perguntava João sem compreender nada.

            — Claudinha, aquela pecaminosa

            — Peraí, você não é a Claudinha?

            — Sou. Quero dizer, não sou. Ai! É que eu sofro de dupla personalidade. Uma sou eu, essa pessoa santa, amante dos bons costumes e boa esposa…

            — Boa esposa? — perguntou João espantado.

            — Ai meu Deus!

            — Que foi agora?

            — Meu marido chega hoje.

            — Então melhor eu ir embora.

            — Isso. Vá. Vá logo, antes que…

            E um barulho de chaves veio do outro lado da porta, era Romualdo. João viu toda a sua vida passar diante de seus olhos. Continuava a imaginar aquela roda de amigos da faculdade, mas eles não estavam mais num bar ou em algum outro lugar animado, tomando cerveja e comentando as noitadas de cada um. Estavam todos no velório do próprio João, onde muitos diziam:

—Tão jovem, tão bom. Pena que morreu cedo.

            — Me esconde no armário!!! — Pediu João desesperado.

            — Não! A primeira coisa que ele vai fazer, é tirar a farda e colocar lá dentro.

            — Farda?! Ah! Tanta coisa pra viver, tanta causa pra ganhar e eu aqui, morrendo moço, sem nem sequer um padre.

            — Padre!!! — Exclamou Dona Cláudia.

            A porta se abriu. Enquanto o major entrava, Cláudia pôs-se de joelhos diante de João e  quando o distinto membro do exército viu a cena, foi logo perguntando:

            — Mas o que se procede aqui, Cláudia?

            — Ah meu bem, que bom que você chegou. Esse é o padre Júlio, da igreja de São Francisco lá na Itália.

            — Padre? Da Itália? — Dizia Romualdo desconfiado.

            — Sim. Eu estava me confessando com ele. — Respondeu a mulher.

            — E desde quando tem de usar baby-dool pra confessar?

            — É que são los pecados de la carne. — respondeu João.

            — Ué padre, o senhor não é italiano? Quando foi que na Itália o povo começou a falar “los”?

            — É que mi padre era italiano, mas mi madre era espanhola. — dizia João, enquanto soava frio.

            Romualdo observou desconfiado e disse:

            — Pois então seu padre, vá perdoando a minha santa esposa, enquanto eu coloco a minha farda lá no armário, e volto pra rezarmos um terço, que eu ando precisado.

            Enquanto Romualdo entrava para o quarto, João fingia estar absolvendo Cláudia. Quando já não se tinha mais sinal do marido, João falou com Cláudia:

            — Por que não conta a verdade pra ele?

            — Não iria adiantar, o médico garantiu para ele que eu estava curada, além disso, Cláudia ou Claudinha, ele tem um ciúme danado.

            — O que eu faço agora? — Perguntou João.

            — Me beije toda! — Respondeu Claudinha, que havia “voltado”, e começava a se agarrar no jovem rapaz, desabotoando-lhe a camisa.

            — Você de novo?! Tenha modos, seu marido está em casa. — Falou João, enquanto tentava se livrar da mulher.

            — Ótimo, a gente chama ele pra brincadeira. — Respondia de forma maliciosa.

            — Você é louca mesmo. E eu vou acabar morrendo como um “padre tarado”.

            — Padre?! Adoro homem de batina.

            — Desse jeito eu vou morrer sua louca. Seu marido é do Exército.

            — Exército?! Eu também adoro homem de uniforme.

            Claudinha deixou o hobby cair, e conseguia ir retirando a camisa de João, que já não sabia o que fazer, a não ser reclamar que era jovem demais para morrer.

            — Mas o que é isso? — Gritou Romualdo, já com a mão preparada para sacar de seu revólver, enquanto via sua mulher sobre o falso padre — Agora é o senhor que vai confessar padre, e vai falar direto com São Pedro.

            — Corre! — Gritou Dona Cláudia, que voltara ao “comando”, e pulava sobre o marido.

            João tentou fugir pela porta, mas estava trancada. Restou-lhe tão somente a janela, e por ela, ele saltou. Vinte andares tinha o Edifício Santa Gertrudes, Dona Cláudia e seu ilustre marido moravam  no décimo quarto. O fato é que por sorte, ou por ironia do destino, João também sofria de dupla personalidade, e não é que a outra era passarinho?!

 

Sobre o autor

Thiago Rossi, nascido no dia 12 de fevereiro de 1985, o aquariano escritor barbacenense gosta das coisas simples. Formado em Publicidade e Propaganda, com especialização em Gestão Cultural, possui uma mente criativa e inquieta, apresentando uma vasta coleção de histórias fictícias de diversos personagens e mundos. Necessitado em externar seus seres e histórias imaginárias, vê em folhas de papel um universo a ser construído todos os dias, se expandindo sem limites.

Começou sua jornada literária narrando as aventuras do repórter Vlad, e hoje possui sobre sua tutela personagens românticos, cósmicos, sonhadores e de outras tantas características, todos prontos a viver as mais diversas possibilidades.

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