Banner Grande Aprendiz 28/06/2019
Banner grande Unipac

O Último Tango de Florencia

Por Thiago Rossi

Em algum lugar, há tempos muito idos, houve uma mulher, uma belíssima mulher argentina, de cabelos muito escuros, feições fortes, pernas torneadas e uma das melhores dançarinas de tango que já se apresentaram no agora extinto Bulles Rouges, uma casa de espetáculos onde eram servidos os melhores vinhos franceses do final da década de sessenta. Alvo de olhares masculinos maliciosos e lascivos, Florencia, assim ela se chamava, não era uma dama fácil de se conquistar, aliás, só houve um homem em todo o mundo que fez o coração da bela “chica latina” se dividir entre sua paixão pelo tango e um amor por qualquer outra coisa.

Carlos Marinho, um ideologista, homem de fortes convicções e detentor do dom da palavra. Realizava seus discursos com tamanho ardor, que chegava a arrancar lágrimas de alguns ouvintes. Pregava liberdade, igualdade e fraternidade, clamava pelo mundo novo e em meio a tantas batalhas cotidianas em sua guerra particular, encontrava nos braços de Florencia o seu porto seguro, o seu recanto de paz. Era invejado por muitos por possuir a mulher que se entregou apenas a um.

Carlos e Florencia eram vítimas deliciosas de um amor arrebatador, quando ela subia no palco e realizava suas apresentações, não haviam olhos mais admirados, mais brilhantes, mais apaixonados que os dele. Miravam suas pernas, seu decote, cruzavam a cintura, se perdiam em cada movimento do tango perfeito, desejavam os lábios e acabavam por repousar no olhar daquela mulher. Sim, não havia sensualidade maior em Florencia do que o seu olhar, dois universos castanhos explodindo sentimentos e iluminando como um sol particular seu mais fiel e apaixonado expectador. Aliás, aquele homem de ombros largos, pele morena e olhos negros era um exímio dançarino de tango, havia aprendido com alguém, em certa estadia em terras platinas. E sem que ninguém soubesse, apenas aqueles dois amantes, todas as noites, no quarto de Florencia, ela, Carlos e a voz de Gardel dividiam um pequeno espaço na sala, de alguns poucos metros quadrados, e se entregavam a um bailar de pernas, de movimentos, onde os corpos pareciam se tornar apenas um.

Todas as noites eram iguais, ela se apresentava no Bulles Rouges, enquanto ele a observava e tomava seu vinho chileno, tinto e seco. Ela seduzia a todos, mas só ele subiria com ela para seus aposentos, onde El Morocho Del Abasto os aguardava com mais uma música binária e compassos de dois por quatro, o coração dele e dela se encontrariam em um abraço, enquanto suas pernas se entrelaçariam em passos e contratempos. A música seria o tango, mas o ritmo seria o amor. Às vezes mais rápido, às vezes mais devagar, às vezes mais ardente, outras mais carinhosa, o sentimento era sempre o mesmo, mas suas variações acompanhavam os acordes da canção da noite, do ritmo do coração, dos lábios, do encontro das mãos, das pernas… A paixão entre dois mundos tão distintos e tão iguais.

Florencia lia cartas de tarô, enquanto Carlos não acreditava nas armações do destino. Ela dizia que tudo tinha um porque escrito em linhas cósmicas, nas estrelas, nos astros e nas cartas, nas linhas das mãos e na vontade dos deuses. Ele acreditava nos acasos apenas, no que era científico e no que poderia ser provado por equações, encontros para ele eram meras ocasiões onde ponteiros de relógios diferentes se encontraram sem intenção alguma, apenas por que por uma lógica eles iriam se encontrar. Ela era mística, ele era razão.

Certa noite de lua cheia, quando o casal subia as escadas à meia luz, arrancando beijos escorados nas paredes, ambos manchados nos lábios pelo batom carmim da dançarina, a figura de um homem em meio a fumaça de um cigarro interrompeu aquele particular de amor. Florencia, com olhos sérios e espantados, jamais havia visto aquele ser, Carlos por sua vez, proferiu um nome:

— Augusto!

Era esse o nome daquele homem estranho, barbudo, sem sorriso nos lábios e sem luz no olhar, o que de augusto haveria nele afinal, senão apenas o nome que recebera na pia batismal, se é que aquele era mesmo o nome dele. Carlos conhecia muita gente, muitos apenas com um primeiro nome, sem sobrenomes ou referências a alguma família que os tenha concebido. Filhos de chocadeira, era assim que Florencia às vezes se referia aos amigos de seu amado, mas ele apenas sorria, balançava a cabeça e respondia.

— No que eu faço, às vezes a ignorância é uma benção minha querida, uma benção.

E agora aquele homem estava ali, o tal Augusto, os observando do alto da escada, e aos olhos da dançarina de tango, nada de benção parecia vir dali, apenas sombras. Naquela noite Gardel permaneceu silencioso e Florencia sozinha, Carlos seguira com o tal Augusto e ela teve de se contentar com a companhia de suas cartas de tarô. Se há algo que floreia e se mistura e enriquece os mistérios do amor, esse algo é o misticismo, e naqueles pequenos cartões de bordas arredondadas e um pouco amareladas pelo tempo e pelo uso, a mulher buscava respostas para o destino de seu amor, de seu amado e de si própria. Mas assim como Gardel, o destino se mostrava mudo em suas revelações.

A porta se abriu, e como um vento do nordeste, Carlos entrou, olhou rapidamente o interior daquele apartamento, até encontrar quem procurava sentada à mesa, caminhou sem dizer palavras, a levantou da cadeira e beijou-a, com um beijo que significava muitas coisas, desde uma declaração de amor até a confissão de que deveria partir. Só houve aquele beijo e um diálogo curto sobre a necessidade para a causa, tempos sombrios, pedidos de aguardo e promessas de regresso, e tão rápida como foi aberta, a porta também foi fechada, deixando para trás uma mulher vestida de saudade, amargura e lágrimas.

Quinze luas cheias iguais à daquela fatídica noite voltaram a brilhar no céu, testemunhando assim como suas versões nova, minguante e crescente todas as cartas de tarô dispostas na mesa, todas as noites, sendo questionadas por Florencia se seu amado estava vivo e se regressaria. Todos os discos de tango haviam sido guardados, esperando a oportunidade de embalarem a dança daqueles dois. Quando a décima sexta lua, em todo seu esplendor, iluminou o céu do lado de fora do Bulles Rouges, e com o peito arrebatado de saudades, Florencia se permitiu seduzir por um rapazote, um homem de quem ela disse não querer saber o nome e que chamaria por Carlos somente. No fim da noite, ela e seu novo affaire subiram as escadas e, retirando a poeira de seus discos, novamente a voz de Gardel foi ouvida por através daquelas finas paredes. A mulher se entregou ao tango nos braços daquele falso Carlos, e enquanto dançava, fechava seus olhos e através dele enxergava naquele desconhecido o seu homem, com quem bailou todas as faixas sem desprender-lhe um beijo.

Depois daquela noite, foram inúmeros os falsos Carlos que passaram por sua sala, que lhe abraçaram a cintura e que dançaram com ela à meia luz daquela sala e seus velhos móveis. Os falsos Carlos conseguiram dela apenas o novo nome e a dança de olhos fechados, nada mais, nada menos. Não houve espaços em seus braços e nem em seus lábios, muito menos em sua cama, eles apenas preenchiam o vazio da dança, oferecendo, sem saber, seus corpos para a encarnação do grande amor da dançarina.

As cartas continuavam a não responder e os falsos Carlos a lhe entreter, mas nada preenchia o vazio de seu coração. E à tarde, quando ela era apenas uma senhorita sozinha na praça, dando milho ao pombos, acompanhavam-na a amargura da possibilidade de nunca mais bailar um tango nos braços quem melhor a abraçava e do coração que compassava ao seu. E embora a dor fosse tamanha, suas lágrimas eram substituídas pela fragilidade das brasas de um cigarro breve.

Segundos se passavam, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, e a beleza jovial de Florencia dava espaço a rugas e linhas de expressão, a menos agilidade com braços, mãos e pernas. O tempo cobrava seu preço e a solidão misturava-se a saudade, enquanto os discos empoeiravam-se mediante a redução do número de falsos Carlos que a acompanhavam pelas noites sem fim. Começava a acreditar que talvez jamais voltaria a repousar seus olhos sobre aquele que um dia já fora tudo para ela.

Em mais um aniversário da partida de seu amado sob a tutela do misterioso Augusto, Florencia resolveu dar fim ao seu sofrimento. Um copo de veneno preparado para encerrar uma noite de tangos, seus últimos tangos, seu último bailar com tantos falsos Carlos que pudesse encontrar. O Bulles Rouges já não estava mais em seu auge, assim como sua outrora principal bailarina, mas as tábuas de seu chão foram testemunhas dos passos mais apaixonados de Florencia Gatti.

Em todos os seus pares ela via somente a jovialidade de Carlos, seu amante que a abandonara na fumaça de um cigarro e com promessas vazias de regresso. Foram um, dois, três, vários tangos renomados e desconhecidos dançados por Florencia, naquela que seria a última apresentação de sua vida. Após o último passe, da última dança com seu último falso amor, Florencia sentou-se em sua mesa, onde repousava o copo com seu destino fatal. Olhara uma última vez para a porta da boate, na esperança que a silhueta de um homem surgisse em meio à luz, mas nenhuma alma viva adentrou ou fez a intenção de fazê-lo. Tomou o copo em suas mãos e envenenou-se, aguardando a morte.

Na mesa ao lado, uma pequena risada de zombaria. Um senhor muito bem vestido em um terno branco, gravata vermelha e um chapéu da mesma cor que o paletó. Levantou-se e pôs-se diante da velha argentina, estendendo-lhe a mão para uma dança, um tango de Gardel que se iniciava.

— Eu prometi buscá-la. — Ele falou.

— Carlos? Meu Carlos? — Os olhos dela se encheram de lágrimas, e ela levantou-se para repousar nos braços de seu amado, durante o tango mais lindo de sua vida.

No paletó dele, um frasco de cor escura, similar ao veneno do copo de Florencia. Ilusão ou realidade, a verdade é que os céus foram o repouso do casal naquela noite e nas noites vindouras. Os céus e o amor.

 

Sobre o autor

 

 

Thiago Rossi, nascido no dia 12 de fevereiro de 1985, o aquariano escritor barbacenense gosta das coisas simples. Formado em Publicidade e Propaganda, com especialização em Gestão Cultural, possui uma mente criativa e inquieta, apresentando uma vasta coleção de histórias fictícias de diversos personagens e mundos. Necessitado em externar seus seres e histórias imaginárias, vê em folhas de papel um universo a ser construído todos os dias, se expandindo sem limites.

Começou sua jornada literária narrando as aventuras do repórter Vlad, e hoje possui sobre sua tutela personagens românticos, cósmicos, sonhadores e de outras tantas características, todos prontos a viver as mais diversas possibilidades.

Banner Grande Podologia 1
Banner Aplicação

Os comentários estão desativados.