Leitura do dia: São Longuinho

Por: Thiago Rossi.
Cheguei à estação, banho tomado, gravata branca, paletó bege ornando com as calças de linho, e os sapatos muito bem engraxados. Na cabeça o chapéu e debaixo do braço o meu jornal dobrado. Desta vez segui acompanhado de meu velho cachorro, Mastroiani.
Na noite anterior, ideia estranha me passou pela cabeça enquanto a mesma descansava sobre meu travesseiro de flores de macela. Sugestão que, inclusive, deve-me ter sido feita pelas secas pétalas das amarelas Achyrocline satureioides a cochichar em meus ouvidos.
Ora, sempre que algo sumia, minha Tia Inês recorria a São Longuinho. A velha irmã de minha mãe era sempre prontamente atendida, e o sacro italiano encontrava até mesmo agulha no palheiro, trocando tão árduo serviço prestado por apenas três pulinhos como pagamento.
Pensei então: se o outrora soldado romano conseguia encontrar de um tudo, será que por três pulinhos meus ele me encontraria quem eu há tanto tempo esperava?
Levantei-me, sai de meu quarto em passos mudos e vasculhei pela sala em busca da imagem do santo que carregava uma lanterna. O encontrei na estante de minha tia, ladeado por São Francisco e São Pedro e o afastei de tão ilustres companhias para que pudéssemos ter um particular. Combinei com São Longuinho os três pulinhos se ele encontrasse a moça dos cabelos vermelhos que eu tanto aguardo, selei o combinado com um Pai Nosso e voltei para o conforto de meu colchão de palha.
No dia seguinte, como já descrevi no início destas letras, cheguei à estação acompanhado de Mastroiani, sentei-me no sétimo banco e aguardei ansioso a chegada do trem e seu vagão 29. A balduína demorou a chegar, mas como sempre veio. Pensei: será que São Longuinho precisou atrasar a velha locomotiva para conseguir o que eu pedi?
Com olhos de águia vi descer moço, rapazote, moça nova, moça velha. Vi padre, freira, doutor, chapéu e sombrinha…Vi tudo o que se perde e tudo o que se acha, mas não vi você.
Indignei-me com o santo e até cogitei que ele não houvesse te procurado direito. Esperei o trem partir e a estação se esvaziar, talvez você estivesse perdida por ali e fosse necessário rezar ao Longuinho novamente.
Mastroiani me observou e entendi que talvez o Santo tenha cumprido a parte dele e te encontrado, mas como gente não é coisa, ele não pode trazer, já que isso é cousa que suas próprias pernas devem fazer. Suspirei e achei por certo dar um pulinho e meio, para recompensar o esforço do antigo soldado.
Voltei novamente para casa sem quem eu esperava, mas matutando qual santo poderia me ajudar. Valei-me minha Nossa Senhora da Saudade.
Do Livro 365 dias na Estação.
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