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Faça sua mala com cuidado!

Por Laura Assis

Ele chegava em casa todas as noites e fazia sua mala. Mentalmente, colocava naquela enorme bolsa as coisas mais importantes. Deixava algumas num canto, caso coubesse, levaria.
O mais importante era colocado primeiro, aquilo sem o qual não queria viver. Mentalmente, eu imaginei diversas vezes a mesma cena: ele colocando para dentro tudo o que lhe fazia desviar dos percursos, deixar alguém esperando, passar por cima dos sentimentos, sorrir com facilidade…
A primeira coisa que eu o via colocando na mala não era sua família, nem os seus amigos. Primeiro ia um grande filtro que o fazia dividir as pessoas em duas categorias: bonitas ou feias. Em seguida a família, os amigos, que eram os melhores que alguém poderia ter . Logo depois, colocava as mulheres, sim, no plural. Prosseguia colocando suas pequenas aspirações do dia a dia, já que naquele momento não tinha grandes sonhos ou projetos. Como não precisava de amor, o coração ficou na pilha das coisas que só levaria se sobrasse espaço.
Naquela pilha de coisas que ele talvez colocasse na mala, estava eu. Como uma criança na fila da merenda que torce pra não ficar sem sobremesa. E eu ficava ali sempre sentadinha, esperando a minha vez que alguns dias chegava, outros não. Tudo dependia do que ele desejava naquele dia. Tinha noites que me colocava na mala, por último, n’outras eu ficava de fora, inútil àquela vida.
Com o passar do tempo fui percebendo que o sorriso daquela criança que aguardava na fila foi sumindo quase imperceptivelmente. Nem ele se deu conta de que eu parava de sorrir, nem eu percebi que a tristeza ia pouco a pouco roubando os espaços que o amor ocupava.
E foi assim, noite após noite: um dia na mala, quatro ou cinco fora dela. Um dia quase me sentia importante, mesmo sendo a última a ser colocada na mala, n’outros cinco ou seis se sentia quase como aquele travesseiro que a gente só usa quando tá com dor nas costas.
A eterna espera pelo momento de caber naquela mala foi se tornando desencorajadora, desmotivadora. E algumas noites, eu nem queria mais estar naquela pilha, na fila de espera. N’outras, com saudade, carente, eu ia para a fila de cabeça baixa, sem ao menos ser notada.
Até que um dia, numa das noites que ele me colocaria na mala, eu não estava lá. E então, preocupado, percebeu que talvez tivesse deixado escapar algo importante. Mas orgulhoso que era, não percebeu que era eu, que o olhava de longe procurando por algo que nem sabia o que era.
Nesta noite eu peguei minha própria mala. Antes de mais nada, coloquei meu amor próprio, Deus, minha família maravilhosa, meus amigos tão especiais, meu cachorro… tudo o que era imprescindível à minha vida. Mas ele ficou de fora! Nem sequer na pilha das coisas que podem esperar consegui colocá-lo. Ele ficou lá, me olhando com aquela cara de quem não compreendeu, e eu parti em direção ao sol…

 

Sobre a autora

 

Laura Assis

Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, geminiana, romântica incurável e, assim sendo, tornou-se poetisa. Escreve apaixonadamente à sombra de seus escritores favoritos acreditando que “quem escreve cria um castelo, quem lê mora nele”, conforme disse Monteiro Lobato. Curiosa desde que nasceu, ser completamente mutável, mas não volúvel. Observadora dos relacionamentos alheios que, das teorias que encontrou sobre o amor, nada consegue aplicar a si mesma.

Facilmente impressionável, entretanto, desconfiada como todo mineiro que se preze. Intelectualmente permeável, apaixona-se facilmente por seres inteligentes e dotados de sagacidade. Extremamente comunicativa, carinhosa e afável, não abre mão daqueles a quem entrega seus cuidados.

Sempre debruçada sobre Guimarães Rosa e, assim como Riobaldo apaixonada por Diadorim, deixa para vocês:

“O real não está no inicio nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia..

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com os personagens e fatos aqui narrados  é mera coincidência. Todos os direitos reservados.

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