Somos grãos de areia ao vento

08/01/2021 10:42:00 - Atualizado em 08/01/2021 10:51:02

 

Por Marcos Faria.

 

O velho caminha na areia da praia observando seu neto logo a frente saltitante como toda criança deve ser quando conhece o mar. Observava atentamente preocupado com a segurança daquele pentelho, até que ao chegar em um determinado ponto pouco à frente da barraca de água de coco que ostentava em sua placa “Mais 50 anos! De pai para filho”, foi acudido por pensamentos que desencadearam uma reminiscência:

Lembrou-se de quando ele mesmo chegou pela primeira vez ali, tímido, mas empolgado. Comportou-se na presença de seu pai a quem tinha tanto respeito quanto medo, e por isso permaneceu quieto ao lado dele, que mantinha o semblante sério e rabugento de sempre.

Mas naquele dia, foi diferente, a bronca não foi por bagunça, pelo contrário: O que está esperando, vai brincar! Entra na água ora!

Ele, criança naquele tempo, riu, gritou e correu atirando-se na água. Lutou com socos e chutes contra as ondas até engasgar-se com a água salgada e foi ai que olhou novamente para seu pai que estava parado ali no mesmo lugar que hoje ele está, à frente da barraca de água de coco.

Seu pai naquela dia sorriu, algo tão raro que fez ser um dia único e marcante na sua memória. Teria sido um sorriso de que? Da graça de ver o filho desengonçado nas aguas do mar? Algum pensamento feliz? Ele nunca vai saber, mas sabe o que ele mesmo, agora, naquele lugar, naquele papel estava pensando e curvou-se com toda a dificuldade que os anos de vida lhe imponham.

Seu neto com aidade que ele mesmo tinha quando viu a praia pela primeira vez, percebeu que seu vovô abaixou-se na área e ficou preocupado saindo na agua e indo na direção dele.

Está tudo bem vô?

Sim, pentelho, está, eu só estava pensando ...

No que?

O velho levantou-se com um punhado de área na mão esquerda que lentamente abria soltando os grãos no ar.

Eu estava pensando .... Que somos grãos de área ao vento ...

Não entendi vovô. Respondeu o neto intrigado com as palavras e o semblante do velho.

Um dia você irá entender ...Respondeu o avó sorrindo e colocando a mão na cabeça da criança que o lembrou de si mesmo em um piscar de olhos do tempo.

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