Samburá pescas

02/10/2020 14:19:00 - Atualizado em 02/10/2020 14:25:08

 

Regina Boratto

A moça tinha olhos tristes. Era vista sempre só, na varanda da casa que abrigava a também modesta loja de artigos para pesca. Naquele espaço central da pequena cidade litorânea, a moça passava seus diasolhando o vazio com o rádio colado ao ouvido por horas a fio. Com ninguém se comunicava. Sua condição não permitia desfrutar dos prazeres daquela cidade com praias tão bem arquitetadas por Deus. Sua única companhia era o rádio, do qual nunca não se separava.

 

A qualquer hora do dia que se passasse pela loja, podia-se ver a moça na varanda colada ao radinho. Talvez nem prestasse muita atenção em quem por ali transitasse ou, talvez, não fizesse diferença. Sua expressão dizia que o mundo era todo paz, apesar dos olhos tristes. Eram os anzóis e as redes na loja e a moça e seu rádio na varanda. O resto do mundo corria enquanto o tempo, para ela, parecia não passar. Pessoas entravam e saiam sem que ao menos as olhasse. Observava sem reação o burburinho da praça, com seus dias de sol, turistas e o movimento típico de cidade litorânea. O rádio estava ali, ao seu lado... O que mais importava?

 

Nada parecia alterar sua expressão. Por anos seguidos, observei a moça na varanda... Era como uma foto na parede. Ano após ano, verão após verão, lá estava ela: imóvel e só naquele universo particular.Um mundo sem movimento, sem emoções.Talvez o contato com o mundo fosse feito através do rádio. E erao bastante.A moça era parte do cenário: a loja no meio da praça, as carretilhas e molinetes no meio da loja e a moça na varanda deixando o tempo passar.

 

E o tempo passou. As construtoras trataram de urbanizar a cidade, que ganhou empreendimentos e uma orla imponente. O cenário foi se transformando, o comércio sofisticado chegando. Vieram os importados, os turistas estrangeiros, as franquias, as lojas de departamentos e os condomínios fechados.  As praias privativas. A pequena Samburá Pescasperdeu espaço para um magazine especializado em náutica. Cheio de luz e cores na fachada.

 

A praçinha do centro se modificou. Chegaram as operadoras de celular, e as grandes redes de eletrodomésticos substituíram as lojas de artigos de pesca.Nos verões que se seguiram, os pescadores nãomais encontraram seus materiais que por tanto tempo ali estiveram. A varanda e as redes desapareceram em meio a iates e equipamentos de mergulho. Nunca mais se soube da moça.

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