Raphael

20/07/2020 07:00:00

 

Por Laura Assis.

Eu demorei alguns anos para me sentar em frente à tela branca e escrever verdadeiramente sobre você, para você. Mas isto não é uma despedida, é muito mais uma carta de amor ou de uma amiga distante. Eu sei que muito do que vou dizer, pode ser que você já saiba, tenha até observado... mas a verdade – que eu ignorei dentro de mim por tantos anos – é que eu sinto uma puta falta de você me ouvindo com a mão no queixo, às vezes segurando o riso, às vezes aguardando a hora certa de falar. Portanto, eu preciso mesmo escrever para você...

Em uma sexta-feira de abril você foi embora sem se despedir de mim. Eu sei que você não teve muita escolha, mas acredito que se soubesse o que iria acontecer não teria se despedido da mesma forma. E você já deve saber que eu fiz algo que, embora seja só uma suspeita, acredito que desaprovaria. Sim, eu santifiquei você. Você se foi e eu santifiquei você, colocando-o em um pedestal onde nenhum ser humano jamais chegaria. Te coloquei em um lugar que ninguém jamais chegaria a ocupar, porque em seis meses você foi para mim tudo o que eu jamais havia conhecido e imaginado.

Claro, eu sei que se você não tivesse partido teríamos vivido algum tempo como todos os casais apaixonados e, muito provavelmente, em algum momento eu teria desapontado você e não seria mais idolatrada. E, embora eu não consiga ainda enxergar isto acontecendo, talvez você também pudesse me desapontar – até mesmo me ferir de alguma forma. Eu sei que você não era só aquele cara perfeito o tempo todo, que me tratava da maneira pela qual eu esperei a vida inteira, tornando-se o pior rival de qualquer cara que pudesse chegar até mim depois de você. Eu sei que você mudou toda a minha percepção de fé e que não foi à toa, porque hoje, quando os dias estão difíceis e não consigo ver nenhuma luz no fim do túnel, eu me lembro de você me dizer que não podemos ver Deus o tempo todo e que por isto Ele coloca anjos em forma de pessoas em nossas vidas, para que quando precisamos de algo mais palpável do que uma oração ao céu, possamos encontrar consolo ao alcance das mãos.

O que eu precisava mesmo dizer é que eu santifiquei você. E te pedir desculpas e dizer que eu tenho vivido os últimos anos tentando desconstruir esta imagem, mas que tem dias fáceis e dias difíceis neste processo. Hoje, como você pode imaginar, não é um dia dos fáceis, porque eu estou aqui escrevendo tudo isto em uma tentativa desesperada de colocar meus pés pra fora da porta deste apartamento amanhã de manhã sem duvidar de mim mesma, sem duvidar do fato de que todas as pessoas podem ser, de uma forma ou de outra santificadas apenas porque não estão mais aqui, porque não podem mais errar, não podem mais nos ferir ou chegar tarde demais, cedo demais ou nunca chegar – como você nunca mais chegou.

Você se tornou para mim a referência suprema de amor e devoção - e você não pode ficar bravo comigo por causa disso. Você também não pode ficar bravo porque eu mantive o seu nome em silêncio ou porque eu nunca mais me sentei no banco de uma igreja tentando ouvir as orações que as pessoas fazem em silêncio. Foi duro demais pra mim, num piscar de olhos, perder minha referência de paz e sanidade, de amor e busca constante por evolução. Está vendo? É isto que tenho feito todos estes anos: você se tornou alguém perfeito, inquebrável, intocável, dono dos espaços que ninguém jamais ocupou, capaz de me oferecer o tratamento que jamais me foi oferecido antes – e depois. É por isto, meu bem, que tem sido tão difícil pra mim. Porque há duas semanas atrás você veio até aqui e me disse que se preocupava demais com o modo como eu estava vivendo e, desde então, venho quebrando a cabeça tentando compreender o que é que eu poderia ter feito para chegar até você desta forma. Sim, Raphael, eu compreendi. E te peço perdão por tantas e tantas vezes deixar o que poderia ser a felicidade escapar das minhas mãos sem sequer experimentar apenas por acreditar que jamais seria como foi com você.  Eu não acreditava que teria duas vezes a chance de ser amada daquela forma e sabe, você tinha razão quando me dizia que eu era mortalmente sentimental e possuía apenas uma pequena parte capaz de raciocinar friamente diante de questões emocionais. Mas eu sei que de onde você está, você consegue compreender meus “comos” e “porquês”.      

Diante de todo o sofrimento que conheci antes de você, depois de acreditar que você era a bonança pós tempestade, depois de me deitar por quase cinco horas no jardim da casa de sua vó e ficar ouvindo ela contar como você era o neto mais incrível e dizer que eu devia ser tão incrível quanto você para estar ali... Deus!! É impossível não me lembrar do cheiro de dama da noite que dominava o ar aquela noite... Em suma, espero que você consiga compreender que eu não tornei você o cara perfeito, dos sonhos, a troco de nada. Você foi esse cara! E eu sei que, em algum momento, meu coração vai bater de novo por alguém como você. Não por um cara perfeito, mas por um cara bom. Um cara realmente bom, que se preocupe em não me machucar e que queira realmente me conhecer em todos os aspectos – diferente de todos os outros que eu conheci antes e depois de você...

Obrigada por me visitar tantas vezes esta semana, certamente foram os melhores sonhos que eu tive nos últimos anos. E, mais uma vez, me desculpe por santificar você! Sim, eu vou continuar me esforçando para não criar barreiras quando alguém se aproximar, vou continuar de peito aberto e respirando fundo e desacelerando e me lembrando de que, os seis meses que vivemos nunca mais serão revividos com outra pessoa, mas que eu posso sim, eu mereço sim viver outras histórias, que existem pessoas que não serão você – ou como você – mas que me trarão novas histórias, novas emoções e talvez até, algum dia eu ame alguém que me ame. Porque até aqui, eu confesso, só amei quem não me amava e acho que talvez o meu coração o tenha feito de propósito para que nunca, jamais alguém ocupasse o lugar que um dia você ocupou...

Eu prometo que vou guardar você e todas as memórias que você me deu em um espaço tão curto de tempo em um cantinho do meu coração, sem jamais abrir mão delas, mas que, ao mesmo tempo, vou me permitir abrir de verdade os olhos e o coração para o que vier daqui pra frente.

Eu te amo! E sinto saudades todos os dias do meu melhor amigo, do cara mais adulto e mais infantil que eu já conheci... do cara que me mostrou o céu mais bonito que eu podia enxergar a olho nu, que me mostrou a força que eu tenho e que ela pode ser ainda maior...

Para ler/saber mais sobre Laura Assis, acesse: https://linktr.ee/laurargassis

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Marcelo Miranda
Agencia Qu4tro