Os Pardais - Amor de Costura

25/06/2020 08:08:00 - Atualizado em 25/06/2020 08:09:32

 

Por Thiago Rossi.

— Esta é a Carminha! — Disse Filó apontando uma régua para a imensa foto projetada na parede do porão de Adamastor, através de um retroprojetor.

— Magnífico! He... Ho... He... Você fez no Power Point? — Perguntou a voz de Otelo em meio a escuridão que envolvia o restante do cômodo.

— Ah sim! Fiz um cursinho de informática para a terceira idade, faz algum tempo. O instrutor, o Rafael, era um amor de pessoa. De uma simpatia e de uma vaidade que deixavam ele lindo. Pena que ele tinha namorada e eu algumas décadas a mais, por que senão, ele não me escapava... — Disse Filó.

— Ora, tenha a santa paciência. — Juca interrompeu — Viemos aqui para falar da costureira da rua de cima ou para alimentar seus devaneios platônicos, Filomena?!

— Já falei para você não me chamar de Filomena! — Enfezou-se a senhora de cabelos vermelhos.

— Tá bom! Tá bom! Filó, Filó, Filó, Filozinha. — Embora não fosse possível ver suas feições no escuro, era como se todos sentissem o revirar de olhos de Juca ao responder Filó novamente.

— Continuemos... Continuemos... — Ouviu-se a voz de Adamastor — Você dizia que esta é a Carminha.

— Claro! — Filó retomou o raciocínio — Carminha é uma conhecida, aliás, uma costureira de mão cheia e uma mulher prendada. Solteirona também, mas conhecida em toda a redondeza pelo exímio trabalho que realiza com linha e agulha, uma verdadeira fada da costura. Ela nunca conseguira se casar, aliás, nunca conseguira conquistar os olhares dos homens pelos quais tinha certo interesse, e até mesmo já havia desistido dessa história de amor verdadeiro, dizendo que não tinha mais idade para essas coisas. Mas como diz nosso amigo Otelo, “o amor é feito vento, que sem espera qualquer, vem e varre as folhas de nossa árvore, dando espaço para novos brotos.”.

— Chego a ter náuseas... — Juca falou em voz alta, sendo ignorado por todos.

            — Pois bem, continuou Filó, na tarde da última terça-feira do mês passado algo mudou. Lembram daquela ventania que até derrubou uma árvore na praça? Então, minhas begônias me juraram que foi aquele vendaval que trouxe o Osvaldo.

— E quem é Osvaldo? — Perguntou o barbeiro Manuel.

— Osvaldo é um pão! Viúvo, advogado, se mudou para a nossa Vila Esperança, dois andares abaixo do apartamento de Carminha. Homem garboso, inteligente, com cabelos brancos que contrastam com algumas mechas negras, sempre bem perfumado e extremamente educado e de fino trato. — Respondeu Filó.

— E qual a relação da Carminha com o Osvaldo, além de serem vizinhos? — Questionou Beth, esposa de Adamastor.

— A mulher perdeu o fio da meada por causa dele. Tanto foi que a peguei hipnotizada na sacada da varanda, acompanhando o passear do experiente jovem...

— Ha! — A irônica risada monossilábica de Juca interrompeu Filó — experiente jovem? O homem tem idade pra ser avô do Matusalém, e você o chama de experiente jovem? Tenha dó.

Os olhos de Filó se enfureceram, mas antes que o caos tomasse conta do pequeno porão, Adamastor acendeu a luz e tomou as rédeas da situação.

— Está certo. A Carminha se interessou pelo Osvaldo, e te procurou...

— Sim, ela procurou um pardal. — Respondeu Filó.

— E um pardal ela encontrou. — Respondeu o bonachão Manuel, fazendo referência ao código secreto do grupo. — E o que você sugere, Filó?

— Pensei em embebedá-los, algumas verdade saem quando o álcool entra, não? — Disse a senhora sorrindo, enquanto testemunhava Juca levando a mão ao rosto como não podendo acreditar no que ouvira.

— Pois eu tive uma ideia. — Disse Adamastor.

O velho baixinho explicou seu plano aos demais Pardais e em poucos instantes cada um tinha o seu papel a desempenhar. O primeiro passo foi Filó ir conversar com a costureira, a participação dela seria de crucial importância para o desenrolar do plano.

Na semana seguinte, o tal Osvaldo apareceu na barbearia de Manuel, atraído por um cupom premiado entregue misteriosamente em sua caixa de correios, dando-lhe o direito de fazer, barba, cabelo e bigode de graça. Quando sentou na cadeira, só percebeu a figura de Otelo no banco ao lado quando o dono do sebo começou a conversar com o barbeiro.

— Escute Manuel, disse Otelo, por acaso você não poderia me indicar uma costureira que seja uma verdadeira Penélope de Odisseu, mas que não demore como a espartana?

— Olha Otelo, eu não entendi foi nada do que você falou. — A resposta do barbeiro arrancou um sorriso do cliente — Mas se você está procurando uma costureira, te indico a dona Carminha, ela mora no edifício Santa Gertrudes.

— Mas que coincidência. — Disse Osvaldo — Eu também moro por lá. Você sabe me dizer em qual apartamento mora essa costureira? Umas roupas minhas andam precisando de um reparo.

Sem mais delongas, o barbeiro passou o endereço completo da apaixonada costureira, que mal poderia imaginar que naquela mesma tarde o seu interesse amoroso bateria em sua porta.

O primeiro lugar onde os olhares da costureira e do advogado se encontraram, foi na escada, entre o segundo e o terceiro andar. Ela se interessou pelo senhor de óculos escuros, ele, apenas cumprimentou a senhora, que respondeu ao “bom dia” dele, seguido por um discreto sorriso. Agora, daquela vez, o homem estava em sua porta, novamente a olhando nos olhos e com um sorriso cativante.

— Com licença.

Carminha respondeu:

— Sim?

— A senhora é a costureira do andar de cima, não? — Perguntou simpaticamente.

— Depende de onde está o seu andar? — Respondeu com bom humor, roubando um sorriso de Osvaldo.

— Claro! Claro! — Falou — É que tenho uma camisa de minha estima para coser, e preciso dela esta noite. Um barbeiro me indicou a senhora, aliás, muito bem indicada, ele te elogiou muito.

— Imagina, nem tudo o que dizem por aí é verdade. — Respondeu com um sorriso — Principalmente se forem coisas ruins. Mas traga a camisa, estou com alguns serviços, mas verei o que posso fazer.

Osvaldo logo voltou, dessa vez com a camisa, prometendo retornar mais tarde para poder buscá-la. A senhora preparou sua máquina com linha e agulha, organizou tudo em sua pequena mesa de costura e pôs-se a trabalhar. O serviço foi rápido, demorada foi a admiração por aquela veste, Carminha se encantou, acariciou a camisa com a mão direita aberta, sentindo a maciez do tecido e sem perceber, se viu abraçada à peça de roupa, dançando no meio da sala e sentindo o cheiro do perfume do amaciante que Osvaldo usava.

— Homem de bom gosto. — Falou, afastando o nariz da camisa.

Na hora combinada e com a quantia exata em mãos, o novo vizinho foi buscar sua encomenda, elogiou o serviço, agradeceu por diversas vezes e saiu, levando o sorriso de Carminha e a camisa. Quando a porta se fechou, a costureira sentiu falta daquela peça de roupa, do perfume, da maciez, do dono...

Cada apartamento tinha uma zona demarcada na área de serviço, ordens da zeladora, essa zona, aliás, incluía os varais, e cada apartamento tinha um pedaço reservado.

— Eu não acredito que estou fazendo isso de novo! — Ela falou pra si mesma, bem diante do varal reservado para o apartamento de Osvaldo, o 104. — Seguindo as ideias daquela velha louca da Filomena!

No reflexo involuntário ou como num destes atos loucos do amor, a pacata costureira pôs-se a fazer pequenos rasgos nas roupas do advogado, danos facilmente corrigidos por mãos habilidosas de uma costureira. Dias atrás ela já havia cometido o mesmo crime, com a camisa que momentos antes ela havia consertado e entregado ao vizinho. Tudo sob as ordens de Filó, que certa vez aparecera em seu apartamento dizendo que poderia a ajudar a conquistar o homem dos seus sonhos e revelando o plano mirabolante de Adamastor para tal.

O pequeno crime de Carminha jamais fora descoberto, mas os pequenos defeitos nas roupas foram detectados pelos olhos de Osvaldo, que deixava, todos os dias, as peças danificadas com a vizinha, para conserto. Contudo, e novamente sob ordens dos passarinhos do amor, a senhora passou a demorar na entrega do serviço, o que fazia com que o advogado a visitasse três ou cinco vezes por dia...

O mais curioso deste caso, é que à medida que os dias iam se passando, mais roupas de Osvaldo, além daquelas que Carminha havia danificado, iam sendo entregues pelo advogado para novos remendos. E este era um desenrolar do plano dos Pardais que ninguém espera, exceto Adamastor.

Em determinado momento, o próprio Osvaldo começou a danificar as roupas, apenas para poder encontrar mais vezes com a vizinha costureira.

— Bem, conta a lenda, ou alguns vizinhos de plantão, que em certa noite Osvaldo levou algumas cuecas para remendo e ficou no apartamento de Carminha até o raiar do dia, sendo pego em flagrante na escadaria do prédio, completamente nu e se justificando, dizendo que suas roupas haviam se rasgado e precisaram de reparos urgentes.  — Disse Filó, semanas depois, no meio do porão de Adamastor, e cercada por seus amigos Pardais. — Pelo jeito Carminha vai deixar de ser solteira e Osvaldo vai continuar viúvo, mas seguindo para um segundo casamento, sempre bem vestido, sem um rasgo nas roupas e sem precisar se preocupar com qualquer reparo necessário em suas camisas. Ah! Essas costuras do amor.

 

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