Os Pardais - A Segunda Lei de Juca

26/06/2020 08:17:00 - Atualizado em 26/06/2020 08:18:24

 

Por Thiago Rossi.

 

Juca estava sentado em um banco na padaria quando, de repente, um jovem aparentando uns 27 anos, talvez menos ou talvez mais, chegou perto do velho ranzinza, dizendo:

— Procuro um Pardal.

— Ora, olhe para o céu, para um telhado, os fios do poste... Lá você encontrará algum destes passarinhos. — Respondeu, antes de levar a xícara de café à boca.

— Não, o senhor não entendeu. Eu disse: eu procuro um Pardal. — Insistiu o jovem.

— Meu filho, por acaso está escrito casa de pássaros na minha testa?

O jovem ficou meio sem jeito com as palavras de Juca, contudo, insistiu mais um pouco agora justificando:

— Não, o senhor não entendeu. O senhor não é amigo do senhor Adamastor? Fiquei sabendo que vocês têm um grupinho que ajuda pessoas com problemas amorosos.

— Ah sim! Isso. É, faço parte de um negócio assim. — Respondeu o velho senhor, agora ligando os fatos.

— Pois então... Procuro um pardal!

— Pelo amor de Deus! Eu já falei que faço parte desse negócio de gente intrometida juntando casalzinho. Você ainda quer que eu responda “e um pardal você encontrou”? Tá bom, taí, e um pardal você encontrou... Piu, piu, piu... satisfeito ou quer que eu cisque o chão também? Talvez voar um pouco! — A sutileza não era uma virtude do amigo de Adamastor — Diga logo o que você está precisando garoto!

— Pois então, preciso que o senhor me ajude a trazer de volta minha namorada.

Juca suspirou e revirou os olhos antes de falar ao jovem.

— Meu rapaz, primeiro me diga onde está o cartaz?

— Que cartaz? — O rapaz não entendeu a pergunta.

— O que diz que Pai Juca traz a pessoa amada em três dias! Faça-me o favor.

— O senhor não vai me ajudar? — Desesperou-se o jovem com a atitude do pardal.

 Juca suspirou e realmente pensou em dizer “não”, no entanto, sabia que se tal negação caísse nos ouvidos de Adamastor, ele não teria paz pelas próximas três encarnações, e muito a contragosto falou ao seu interlocutor.

— Está bem. Está bem. Sou uma alma benevolente, pegue a conta, pague um café e sente-se para conversar.

— Pagar o café?

— Sim, pagar o café. Acha que as coisas nessa vida são de graça? Meu tempo vale muito. Posso sofrer um infarto enquanto falo com você, e aí, morro perdendo meus preciosos últimos minutos com seus choramingos.

O jovem resolveu seguir as instruções do velho ranzinza e ao retornar à mesa com o café, ainda escutou que o mesmo estava frio e fraco.

— Tudo bem, disse Juca, agora narre a tragédia shakespeariana que aflige sua vida.

— O nome dela é Amália, ela me deixou e disse que tem uns pensamentos diferentes. Gostos diferentes, ideias diferentes. Disse que odeia a combinação da minha bermuda listrada com a minha camiseta xadrez. Disse também que já não me ama mais, não como antes.

— Olha meu filho, se ela te aturou com essa combinação de xadrez com listras, levante as mãos para o céu. Que falta de charme. Pois bem, mas o que ela disse além do óbvio?

— Disse que não me quer mais na sua vida, que vai seguir em frente e que eu deveria fazer o mesmo. — O jovem quase chorava.

— Uma mulher sábia. — Disse Juca em meio a um trago de café.

— Como assim sabia? Ela me largou, é burrice.

— Como é mesmo seu nome rapaz?

— Otávio. — respondeu antes de soluçar.

— Otávio, isso não é burrice meu filho. Eu tenho tanta coisa para te falar que é burrice, mas precisaria narrar praticamente uma Bíblia de Gutenberg e, sinceramente, como já falei antes, meu tempo é precioso demais. Mas vamos lá, vou te dar uma dica que você deve seguir mi-nu-ci-o-sa-men-te.

— Diga, diga por favor. — O jovem quase caiu de joelhos implorando aquele conselho.

— Escute bem meu rapaz, a dica é: siga em frente.

— Mas isso não é uma dica, isso é o quê Amália me falou exatamente. — Otávio não entendeu.

— Pois então, essa é a dica perfeita. Siga em frente! Não dizem por aí que um pé na bunda te joga pra frente, pois então, continue o movimento. Primeira Lei de Newton, um corpo em movimento continua em movimento. Finja que é a Segunda Lei de Juca, uma vida em movimento continua em movimento...

— Não entendi... Primeira Lei de Newton, Segunda Lei de Juca? — Otávio estava confuso — Então é isso, o senhor não vai me ajudar?

Juca suspirou, coçou a sobrancelha com o dedo mindinho enquanto inclinava a cabeça e fazia uma careta.

— Meu jovem, anote aqui neste guardanapo o seu telefone e endereço. Até o fim da tarde eu te mando um zap. Mas esteja a postos.

O jovem anotou as informações solicitadas, agradeceu e deixou Juca pensativo com seus botões na mesa de café. Por volta das quatro da tarde, um moleque mulato, de dez anos, bateu à porta do endereço anotado no guardanapo entregue à antiga paixão de Filó.

— Você é o Otávio? — Perguntou o menino ao ver o jovem abrir a porta.

— Sou eu mesmo, por quê?

— Seu Juca mandou dizer pra você estar neste endereço às oito da noite. — Respondeu entregando um bilhete a Otávio.

— E quem é você menino? Seu Juca falou que iria me mandar uma mensagem de Whatsapp.

— Não, ele deve ter dito que iria mandar o Zapi, que sou eu.

— Zapi? Por quê?

— Por que a pessoa me chama, me pede o favor e eu “Zapi”, faço. — Disse com um sorriso largo.

— Está certo. Então obrigado! — Otávio falou já fechando a porta.

— Calma seu moço, tem que pagar.

— Como assim pagar? — O jovem não entendeu.

— É que o seu Juca mandou um Zapi a cobrar... Tem tarifa, né?

Otávio teve de pagar o Zapi, mas como especificado no bilhete enviado por seu tutor do amor, foi até o local determinado por Juca. Era uma espécie de restaurante com boate, com pessoas bem vestidas e bem frequentado. Quando chegou, o jovem deu de cara com Juca.

— Está atrasado. — Disse o ranzinza ao ver o rapaz.

— Apenas três minutos. — Justificou.

— Regra básica de etiqueta, meu jovem, quando alguém marcar com você um horário, esteja lá cinco minutos antes do combinado, isso demonstra consideração. — Falou o homem vestido em um terno todo de preto, com uma gravata vermelha realçando sua elegância.

— Mas eu não sabia...

— Você não sabe muita coisa, não é? Pois bem, iremos entrar, nos misturar e, quando eu disser “oh céus”, você vai me acudir e falar assim: “Um médico ou uma enfermeira, por favor!”, ok?

— Sim, mas...

— Mas o que? É simples, não? Mais uma coisa, você está me acompanhando esta noite, por que eu sou um velho muito sozinho, que sentia falta de um pouco de diversão, e coisa e tal... Invente uma história bonita.

Otávio olhava com os olhos arregalados para Juca, sem entender nada direito.

— O que foi? Eu estou mal vestido?

— Não...

— Então o que foi?

— É que... A Amália está aí?

Juca olhou para os céus, suspirou e respondeu.

— Jovem, Primeira Lei de Newton, Segunda Lei de Juca lembre-se dessas duas regrinhas hoje, sim? — Após o jovem balançar a cabeça afirmativamente, os dois entraram na boate.

Era um lugar bonito, com mesas, um palco com um DJ, algumas pessoas em pé conversando e outras dançando na pista. Juca pediu um uísque, o rapaz um refrigerante. Eles conversaram, circularam pelo local, observaram. Quando deu meia-noite, Juca virou-se para seu discípulo e falou:

— Hora da sua fada madrinha, meu rapaz. Aproveite minha disposição em estar neste lugar de bebida cara, música alta e mistura de perfume com desinfetante. Siga as instruções.

Juca se afastou, foi até o DJ, deu-lhe um certa quantia e, voltando, se posicionou no centro da pista. Um tango começou a sair das caixas de som, e o elegante senhor se pôs a dançar sozinho, ou com o que seria uma dama imaginária. De repente, ele estendeu a mão para uma mulher loira, bem vestida e que aparentava ser um pouco mais velha também, mas que não fugiu ao convite.

— Me chamo Suzete. — Falou ela ao pé do ouvido de Juca — É sexy, não acha? Sempre achei sexy Suzete.

Eles dançaram, enquanto o público foi se colocando em volta, curioso e maravilhado com os passos daquela dança. De repente, Juca colocou a mão no peito e falou:

— Óh céus!

            —Ajudem! Um médico ou uma enfermeira, por favor! — Disse Otávio gritando e correndo em direção ao velho cupido.

            Diversas pessoas se aproximaram, entre elas uma jovem que rapidamente falou para Otávio:

            — Eu sou enfermeira, posso ajudar. — E foi ela quem prestou os “primeiros socorros” a Juca, que logo voltou a si e falou que talvez não passasse de gases. A jovem riu e o velho senhor apresentou a moça oficialmente a Otávio.

            — Meu rapaz, essa moça é Abigail, uma enfermeira de mãos de anjo, é verdade. Me ajudou o necessário... — E virando-se para a jovem, continuou — Sabe minha querida, você bem que poderia ajudar a este meu amigo aqui. Devido a minha indisposição, prefiro me retirar. Ele vai ficar aqui sozinho, feito um “dois de paus”, será que eu poderia deixá-lo aos seus cuidados? É aniversário dele, pois bem, e não quero arruinar essa data, e tenho certeza que a noite ficará mais agradável para ele se puder ter uma companhia tão aprazível como a sua.

            — Claro! Não precisa se preocupar seu Juca. Um pedido vindo de um senhor tão simpático como você, não pode ser negado. O senhor é um amor! Muito fofo! — Respondeu a jovem sorrindo para Otávio.

            Os olhos do rapaz se arregalaram quando Abigail enriqueceu Juca de adjetivos.

— Que ótimo! Deixe apenas que ele me leve até a porta, sim? Não saia daqui, minha querida. — Falou Juca para a moça, enquanto se apoiava no braço de Otávio.

— Um pedido seu é uma ordem, seu Juquinha. Fique bem. — Abigail se despediu.

Já alguns passos distantes da moça, Juca falou ao jovem:

— Menos de cinco minutos de conversa e já me chamou de Juquinha, como essa mocidade é oferecida. E os primeiros socorros dela? Deus me livre de encontrá-la em um posto de saúde. Em que faculdade será que ela comprou o diploma? — Otávio testemunhava incrédulo a transformação do bom velhinho em um ranzinza incomparável — Pois bem, não é a mais bonita da festa, mas pelo menos não tem mau-hálito. Converse algo interessante com ela, se é que você consegue.

— Seu Juca... Como você sabia que teria uma enfermeira aqui? — Perguntou Otávio, já perto da porta.

— Estratégia e pesquisa, rapaz! Isso é uma festa da enfermagem, o que mais tem aqui é enfermeira. Agora aproveite a vida, Segunda Lei de Juca! Esqueça Amélia e siga em frente.

— Obrigado seu Juca! — Disse Otávio — E seu Juca...

— O que é agora? — Perguntou, virando-se para trás e observar o jovem.

— Qual a Primeira Lei de Juca?

— Sábia pergunta. A Primeira Lei de Juca é: minha vida não é da sua conta. — Respondeu secamente — Agora vá viver a sua. — E saiu sem de despedir do rapaz e nem mesmo ouvir o “obrigado” que ele havia dito antes do velho ranzinza cruzar a porta.

Uns dez passos fora da boate, o elegante Juca que seguia sozinho pela rua escutou uma voz feminina vinda de seu lado esquerdo.

— Mais um tango, bonitão?

— Suzete? — Indagou.

— Sim, Suzete. — Disse a mulher sensualmente.

— Sério Filó? Suzete?! Não tinha um nome menos cabaré do que isso?

Filó sorriu, tirando a peruca e caminhando ao lado de Juca. Após alguns passos em silêncio, ele falou:

— Você até que não dança mal o tango.

— Olha, um elogio do Juca. — sorriu — Conheci um primo de Carlos Gardel, ele me ensinou um passos durante um verão na Argentina.

— Imagino os passos que ele tenha te ensinado. — Falou com um ar de deboche e uma mistura de ciúmes.

Mais alguns passos em silêncio.

— Foi bonito o que você fez hoje. — Disse Filó.

— O que? O tango? Estou meio destreinado. — Respondeu.

— É... o tango... — Filó concordou, apenas para não esticar o assunto.

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