O Surpreendente Faustino

04/01/2021 08:41:00 - Atualizado em 04/01/2021 11:32:21

 

Por Regina Boratto.

Professor universitário. Esguio e sisudo. Os fios na cabeça denunciam: meia idade. E mais um pouco. Nos dias frios, boina. Nos demais, calvície... O uso dos suspensórios chama a atenção. Ah! O relógio de bolso... Marca registrada. Trajes impecáveis. Engomados. Com vinco e tudo. Sobre o rosto de expressão austera, óculos redondos de armação escura.

Vive no mesmo lugar onde nasceu. Bairro tranquilo na metrópole agitada. Mesma casa. Onde impera o majestoso relógio de pêndulo, “companheiro de todas as horas”. Vive só. Evita multidões e caminhadas (detesta suor) e só circula pela cidade de taxi. Nada de carro ou transporte público (o suor...). Táxi sempre.

Encontros sociais, apenas os obrigatórios. Com restrição. E os acadêmicos, pela profissão.

A expressão austera se desfaz ao entrar em sala de aula. Porta fechada. Silêncio. Carteiras enfileiradas. As posturas se corrigem. A volumosa pasta preta sobre a mesa. Examina os textos de cada divisória com velocidade digital. A apostila está na penúltima. Passa folha por folha, analogicamente. A aula do dia. Cheia de preciosidades, como de costume.

A austeridade se mistura com serenidade. Transforma-se em discreta simpatia. E em carisma. Camuflado sob grossas lentes, sobrancelhas sombrias e vincos na testa. A sabedoria impressiona. A aula flui entre olhares curiosos, risos abafados e longas pausas. Ouvem-se, lá do fundo, alguns suspiros ocasionais, também abafados...

Turma heterogênea. Em idade, estilo e cultura. Algumas senhoras se misturam a calouros, a balzaquianas e a estudantes mais maduros. Comportamento homogêneo: silêncio e atenção. Quando um aluno foge à regra, é chamado de moleque, sem alterações na voz, mas com puxadinhas aflitas nos suspensórios.

E o moleque tenta imaginar como vive professor Faustino...sempre só. E só no passado.

Três minutos para encerrar a aula, vistos no relógio de bolso. Distribui capítulos de Hobsbawn para a semana seguinte. Aguarda, com ansiedade disfarçada, os alunos se retirarem, um a um.

A senhora lá de trás guarda lentamente a lapiseira. A caneta. O caderno. O celular. O livro. A agenda. Retira de novo o caderno da bolsa. E a caneta. Faz breve anotação. Ainda restam alunos em sala. Mais uma anotação. Dois estudantes levam a eternidade para sair. E a anotação vai se transformando em redação... em dissertação, em testamento... ou sabe-se lá o quê. Enfim, saíram. Alívio. Ansiedade crescendo na mesma proporção do texto. Uma abertura a mais no decote. Postura endireitada. A respiração acelera enquanto o sisudo professor leva de volta na divisória as apostilas. Penúltima divisória.

A volumosa pasta preta cerrada. A porta e os dentes também. Mais uma olhada no relógio de bolso. Sala vazia, toma direção à senhora, lá no fundo. Sapatos pesados. A cada passo, um eco no peito. Respiração ofegante. A dela. A dele. A dela e a dele.

Enfim, próximos.

- A aula acabou, minha senhora!

Decote vulgar. Pernas displicentemente descruzadas. 

Mais próximos.

Perfume também vulgar.  Vencido.

(O suor...)

Poucos centímetros os separam.

Ela se levanta. O caderno em mãos. As palavras em longa fila esperam sua vez.

 “Minha senhora”! Minha... Pronome possessivo. Posse. Senhora. Dona. Possessão.

Os dois de pé. Quase colados. As palavras caem na carteira.

Impulso. Os suspensórios junto ao perfume vencido. O decote se abre um pouco mais. O relógio, no bolso, parece parar. Os ponteiros indicam: ela acaba de se tornar sua dona.

Clube dos Literatos
Clube dos Literatos

Contos, crônicas, poemas, poesias, artigos, prosas… Não importa o gênero literário, o Clube dos Literatos recebe de páginas abertas conteúdos de qualidade e desenvolvidos por barbacenenses natos ou de coração. A ideia é proporcionar o desenvolvimento literário na cidade, dando a oportunidade do público conhecer o trabalho realizado pelos talentos de Barbacena e, também, incentivar a leitura e a criação literária.

Ver Publicações


Coisas de mãe
Festival de musica