Não desista de você

19/05/2021 15:14:00 - Atualizado em 19/05/2021 15:15:07

 

Por Rogério Puiatti

 

Queria poder escrever sobre o que estou sentindo e deixar as palavras fluírem e fluírem todas na mesma frequência, na mesma sintonia que esqueço que não sou eu quem dita as regras, que é só chegar e sair escrevendo e escrevendo e escrevendo e no fim, para um texto impecável, uma folha completa, tudo estará preenchido. Meus sentimentos são confusos como o labirinto de Dédalo, só que sem o fio de Ariadne para me guiar. Estou tão perdido que só vejo paredes ao meu redor, elas estão aumentando e me fechando e agora uma muralha, um paredão surge e começo a ficar nervoso, começo a me sentir claustrofóbico, começo a chorar e querer sair dali o mais rápido possível. Está tudo escuro, o cheiro não é dos melhores. Minha visão não se adapta à escuridão. Começo a tatear as paredes com esperança de ir ao encontro de alguma fechadura, de alguma passagem. As paredes continuam a se contraírem. Olho para o alto e avisto o céu. Grito com todas as forças e esgoto o ar dos meus pulmões mas o espaço é pequeno e meu grito é abafado. Grito inúmeras vezes mas ele é sempre abafado, sufocado. Exausto e sem forças, paro e tento me ouvir. Dentro de mim está frenético, uma Rave acontecendo, músicas eletrônicas, batidas, estrondos, uma falação que não consigo distinguir as vozes. São várias pessoas ou sou só eu? Só minha voz tentando ser ouvida? Não consigo mais distinguir. São anos de enclausuramento, de bloqueio, de separação do meu eu do meu verdadeiro eu. Uma separação de duas almas, minha liberdade, minhas vontades foram separadas do meu espírito, da minha essência. Sabe aqueles abandonos que doem o nosso coração quando ficamos sabendo? Mãe abandona filho recém-nascido na lixeira da esquina. Ficamos com ódio, com uma sensação ruim, né? Pois é assim que eu me sinto, nessas décadas separadas do meu outro eu, do meu verdadeiro eu. Não entendo o porquê me separaram de mim mesmo. Desde que me conheço, desde que nasci eu vivi isso, eu presenciei essas atrocidades que a sociedade faz conosco, nos separando de nós mesmos, involuntariamente, aos poucos, dia após dia, gota após gota, momentos após momentos, até percebermos que há algo de errado, algo de estranho, até não aguentar mais e partimos em busca da nossa outra metade, da minha verdadeira metade, ou melhor dizendo, do meu eu por inteiro. Conhecimento, autorreflexão, estudos, aceitação, processos julgados em busca do aprendizado, em busca da reestruturação do meu intelecto, do meu eu, da minha essência, da minha personalidade. Anos de aceitação. Anos de entendimento para agora eu estar novamente preso nesse lugar conhecido e que nunca esquecerei. Tento manter a calma, respiro, relembro de tudo que vivi, que passei e oro. Rezo e peço a Deus para me guiar pois Ele é o pai, é dEle tudo e todas as coisas. Rogo, rogo e rogo. Converso com Ele, meu melhor amigo, meu confidente. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ele me diz. Sinto seu sopro, seu calor. Ouço bem perto. Sua presença é notável. Lembro do que tinha conversado com ele minutos antes de entrar novamente nessa escuridão. Eu disse: Senhor, se Tu me amas eu te entrego tudo que há em mim, te entrego todo o meu ser. Se Você ama todos os seus filhos, Você também me ama e eu te amo e me amo. Agora eu entendo. Perdoa-me e me aceita como eu sou. Eu aceito como eu sou e eu te entrego meu coração. Após dizer essas palavras vejo algo no chão, um brilho, uma linha e sinto dentro de mim que devo seguir e faço, sigo até avistar uma porta. Abro e me vejo do outro lado, completo, em paz. Me aproximo, me fundo e me torno um só. Me completo, o Eu por inteiro. Torno minha melhor versão. O que eu sempre fui, um ser humano com qualidades e defeitos, com vitórias e derrotas, com forças e fraquezas, que chora e que ri, que ama e que detesta, um ser humano que não só existe mas que vive o que sempre quis, o que estava escrito nas estrelas, na linha da vida, porém vivo com toda a minha verdade, com sinceridade, com amor. Agora eu estou completo, me torno cem por cento eu

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