Mulheronça

04/12/2020 08:41:00 - Atualizado em 04/12/2020 08:48:58

 

Por Ivone Curi

Eu conheço uma pessoa que é uma onça. Uma mulheronça! A quem não basta ter a faca e o queijo nas mãos. Tem que ter a vara também. E a vara varia de tamanho. Pois te cutuca a curta, a média e a longa distância. De perto te chama na lata, a sincera, de songa-monga ou te lasca um cascudo no cocuruto para ficares mais esperta. Do alto da torre, a altiva manda torpedos em caixa alta, te acorda assim aos berros de madrugada e ameaça jogar nas redes teus apelidos e teus podres. Pra ela a vida é um jogo. Precisamente o jogo da Verdade e do Desafio no qual só ela faz as perguntas e dá as tarefas.  Consequências: onde houver paz ela leva a discórdia, onde houver uma rodinha ela é o desmancha montinho.  Desse jeito ela cava, cava, cava... Dizem que a própria cova.

Porém, se tiveres talento para equilibrar-se na corda bamba do humor dela, ela é bem capaz de te dar dicas preciosíssimas. Pois a fera sabe falar, assoviar, vestir, investir, pintar, desenhar, nadar, patinar, esquiar, pilotar, dançar, decorar, descolar, degolar... Cobra nisso tudo e em muito mais, só te cobra vassalagem.

Em meio à pandemia, a criatura encontrou o cenário perfeito para revelar mais uma de suas facetas, a de médica!  Passou a receitar de tudo um pouco, da polêmica cloroquina aos controversos corticóides, dos antivirais aos antiparasitários, de anticoagulantes ao plasma convalescente, de vitaminas (em doses cavalares para blindar o sujeito) aos inócuos suplementos alimentares, da sauna à Yoga (de uma vertente poderosa, capaz de despachar o praticante, para uma região tão remota da Antártica onde nenhum vírus o alcançará), da vodka pura à urina e cocô de vaca, do adesivo de nicotina, passando pela maconha e, sob acompanhamento médico, evidentemente, à cocaína. Mas não obriga ninguém, tampouco empurra goela abaixo, como deixa bem claro.

Vá questionar... A médica vira monstro!  Quase te faz engolir o smartphone para literalmente beberes de sua fonte, conhecer seus informantes, só gente graúda: líderes políticos e religiosos, Youtubers, blogueiros e os amigos do Whatsapp.  Simplesmente não dá pra encarar. Palavra de quem já levou tapas, beliscões, pontapés, solavancos, unhadas, broncas, caldos, trotes, o escambau.

De modo que para escapar dos ataques da mulheronça, sugiro: toma distância! O que por si só não é suficiente. Lembra-te, ela tem vara comprida! Faça também silêncio total e o que é batata, finge demência! Que o máximo de desventura, caso trombes com ela sem querer, será levares um safanão! Safar safar, safa não!

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