Lua Vermelha: Gerônimo e Adila

06/10/2020 08:42:00 - Atualizado em 06/10/2020 09:04:46

 

Por Thiago Rossi


Em tempos idos, perdidos na memória, coisa antiga, de era de reis e cavaleiros, houve um jovem casal apaixonado, e embora o amor fosse maior que o mundo, os dois tinham de se encontrar escondido já que o romance não era permitido pela família, tipo plágio de Julieta e Romeu.

Acontece que Gerônimo e Adila resolveram por se encontrar escondido em terras de gente desconhecida, onde havia uma casa abandonada que há muito parecia não ser usada. O casal, no entanto, no equívoco das escolhas, acabou sem saber, invadindo a propriedade de uma velha bruxa, que ofendida com  a irrupção ao seu domicílio, cismou de lançar uma maldição aos jovens amantes. Os dois foram condenados a virarem estrelas e viverem um de cada lado da lua, dessa forma, jamais se veriam de novo.

No entanto, entretanto, contudo, maldição sempre tem de ter solução. Coisa do código de bruxas e feiticeiras e publicada no parágrafo quarto do manual de conduta da classe. Para se reencontrarem, a bruxa disse:

— Quando a lua ficar rubra feito sangue, será permitido a vocês novamente se encontrarem. — E terminou com aquela risada que só as bruxas sabem dar.

Certa quantidade de dias se passaram, e os dois amantes, um de cada lado da lua, reclamava com a mesma sobre a saudade de encontrar com o saudoso par.

— Sabe dona Lua? Eu amo Adila como a senhora ama o Sol. — Disse Gerônimo à dama de prata.

— Oras, tenha dó! — Sorriu a Lua encabulada — De onde tirou essa ideia de que eu amo o Sol? O senhor  chega a me deixar com as bochechas coradas.

O comentário de Lucina poderia ter passado despercebido, mas não para alguém que buscava uma solução para um problema secular. Gerônimo então continuou, e falou alto, para que Adila, do outro lado do satélite, ouvisse.

— Imagina Dona Lua, todo mundo sabe que a senhora mingua quando o Sol não está por perto. Não é Adila?

— Oras, tenha modos Gerônimo. — Disse a Lua mais encabulada — O que os outros astros vão pensar?

— Vão pensar que a senhora está bem viva e bem disposta! Tem gente na terra que te compara a um queijo, e se o Sol for bem o seu ratão? — Disse Gerônimo.

— Gerônimo, deixe a Lua em paz, você a está encabulando. — Adila protestou em favor da amiga celeste.

— Imagina, se eu iria querer deixar a Lua vermelha de vergonha? — Gerônimo gritou ao infinito, momento em que Adila ligou as ideias.

— Ele não vai mais te incomodar Lua... Mas que o Sol é rei, isso ele é... Principalmente do seu coração. — Adila falou — Você fica toda crescente quando ele vem chegando.

— Ai! Você também Adila? Tenha dó! — As bochechas da dona Lua estavam rubras.

— Mas vai dizer que não é verdade? — Gerônimo emendou — Tem planeta Plutão de ciúmes do Sol com a sua pessoa. Vai dizer que ele não é o centro do seu universo? Todo mundo sabe sobre o seu heliocentrismo.

— E quando chega o verão então, com ele mais perto, você diz que está na menopausa, mas na verdade morre de calores por ele. — disse Adila.

— Vocês dois estão me deixando constrangida. — Disse a Lua sem saber para onde olhava.

— Ah Lua, todo mundo sabe que seu sonho é que ele te dê pelo menos um dos anéis de Saturno. — Disse Gerônimo.

— De preferência no dia em que ele estiver bem pertinho. — Completou Adila.

— Sem camisa... — Disse Gerônimo.

— Num eclipse louco com você. — Terminou cochichando Adila.

E numa explosão de constrangimento e vergonha, a Lua ficou rubra feito sangue, do jeitinho que a bruxa disse que deveria ficar para com a maldição encerrar. O casal, feito estrela cadente, voltou pra Terra em um abraço cósmico, dando fim à saudade.

E foi assim que foi, por que assim que havia de ser. E foi esse o causo dos apaixonados que colocaram fogo na Lua e a deixaram vermelha, vermelha...

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