Festum

21/07/2020 07:58:00 - Atualizado em 21/07/2020 07:59:51

 

Por Thiago Rossi.

Naquela terça-feira não houve chegada de trem, embarque ou desembarque. A única que chegara à cidade fora a alegria e euforia do Carnaval. A plataforma que todos os dias testemunhava sorrisos e choros de chegadas e partidas, experimentava agora gargalhadas contagiantes, risadas e mesuras.

Um baile fora organizado na plataforma, e como disse minha tia Inês ao me ver, agradada, me arrumando para o folguedo, “quem fica em casa é móvel de madeira, esperando poeira e cupim”. Não queria me mascarar, mas a velha irmã de minha mãe me instruiu que às vezes, mascarar-se no carnaval é na verdade desmarcar um pouco de nós mesmos.

Cobri minha face com uma máscara improvisada, feita de pano e sustentada por um nó na nuca e meu chapéu. No rosto, logo abaixo do olho esquerdo e da máscara, desenhei com carvão uma pequena lágrima na bochecha.

Na plataforma, dessa vez sem aguardar ninguém, encontrei amigos e conhecidos em meio à folia e sem que esperasse, fui envolvido em serpentinas coloridas, que logo deram espaço para a passagem de uma figura feminina, vestida de branco repleto de paetês e lantejoulas, a máscara cobria-lhe a face, mas era insuficiente em esconder seus cabelos avermelhados e seus olhos. Já dizia um amigo poeta que nada é mais inesquecível à alma que um olhar.

Confesso, nessas memórias, meio encabulado, que no momento em que dei-me conta daquele olhar, já era tarde e a dona dele me roubava um beijo dos lábios. Se é que é possível roubar aquilo que quer se dar. E antes que ela escapasse, segurei-lhe as mãos, não de maneira abrupta, mas maviosamente. Aqueles olhos novamente me encararam, me leram e decifraram e mais uma vez entre centenas, nossos lábios se revisitaram, se encontraram, se encantaram, se conheceram e se reconheceram.

Quando fui revelar-lhe meu nome, ela simplesmente me calou a voz colocando o dedo indicador em meus lábios, sussurrando-me que “o carnaval tem os seus segredos”. E naquele enigma contagiante, dançamos aos sons de marchinhas e letras lúdicas, entre mãos entrelaçadas, beijos furtivos e furtados e abraços acalentados.

Mas antes do badalar da meia-noite, quando a torre da igreja anunciava que a festa virava cinzas, minha misteriosa companhia desaparecia no meio da multidão, carregada por odaliscas e marinheiras. Seus olhos encararam os meus e seus lábios partiam emoldurados por um belíssimo sorriso, sem dizer adeus em palavras.

Mais uma vez, no meio daquela plataforma eu ficara sozinho, abandonado por cabelos vermelhos. No entanto, desta vez um fato curioso marcou minha adorável aventura de carnaval: a lágrima de carvão que eu havia delineado em minha face, com tantos significados, havia desaparecido.

 

Do Livro - 365 Dias na Estação.

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Marcelo Miranda
Agencia Qu4tro