Eu conheço uma pessoa... varredor

17/11/2020 10:39:00 - Atualizado em 17/11/2020 10:40:02

 

Por Ivone Curi.

 

Eu conheço uma pessoa, um senhor, que todo santo dia varre a calçada. Não só varre, cata o lixo, limpa as lixeiras, faz a capina, pinta o meio fio e as faixas, desentope os bueiros, conserta as placas, sinaliza os buracos e os obstáculos da rua inteira.

Antes do isolamento social, cruzava com ele, quase diariamente. Ele sempre com a cara amarrada, respondendo com um resmungo os bons dias e as tentativas de prosa dos vizinhos e dos transeuntes. A mim nunca sequer deu um oi. O que bastou para desencadear toda sorte de devaneios.

No pior deles, o dito varredor era o clone de Arquimedes Puccio. O tenebroso patriarca que aterrorizou Buenos Aires, no início da década de 80. Apelidado de El Loco de la Escoba justamente por ter o hábito de varrer a calçada toda manhã com o intuito de passar a imagem de vizinho camarada, de cidadão acima de qualquer suspeita. Quando mantinha e torturava no porão de sua casa com a conivência da família as pessoas que sequestrava. E como se não bastasse, o psicopata as matava mesmo após receber o pagamento de resgate.

E eis o cúmulo da coincidência! O carrancudo varredor tem também um porão em sua casa! De modo que toda vez que eu passava por ela, não obstante o medo, protegida apenas pelos óculos escuros, arriscava uma boa olhadela para ver se via ou ouvia algo suspeito. O que seria e o que faria a respeito nunca chegava a um acordo. Deixava rolar a imaginação. Até que o normal pediu pausa e as fantasias, trégua!

Até que, na semana passada, após meses sem ver a cara da rua e a dele, esquecida das elucubrações habituais, passo distraída por aquela zona imaginária de perigo e do nada ele surge a minha frente.  E pasmem... me cumprimenta e praticamente sorrindo me pede um momento de atenção. Tira do bolso um papel e me entrega. Era um santinho. E começou a explicar. Este candidato a vereador é um amigo meu.  Está aí o seu nome, seu número e o seu slogan! A senhora notou que ele está com uma vassoura na mão?  Ele me contou que mirou no meu exemplo. Não no do Jânio Quadros e de outros que... a senhora sabe! Note que ele está varrendo mesmo!  “Quem quer um mundo melhor tem que começar por varrer a própria casa, sua rua, sua cidade!” Com o papelinho na mão, comento: Verdade! Toda limpeza começa com uma boa varredura!  Leia depois, sem compromisso! – disse-me e completou: Não vou mais prendê-la aqui na calçada! Nem na calçada, nem no porão - pensei e quase solto uma gargalhada, contive-me e apenas disse: Imagina!  Ao se despedir fez menção de dar aquele tapinha no ombro, mas se lembrando do protocolo brecou a tempo.  Despedimo-nos com sorrisos acanhados, se os tempos fossem outros...     

Que acontecimento! Foi muito bom saber que a pandemia, ao contrário da ditadura, despertou o melhor do varredor!  Sim são tempos difíceis, são tempos de sermos melhores!

Para quem quiser saber mais sobre o tenebroso patriarca da família Puccio, indico: O Clã - filme de Pablo Trapero, 2015 e História de um Clã - Minissérie de Luis Ortega, 2015, Netflix.

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