Drosera Negra

26/03/2021 14:50:00 - Atualizado em 26/03/2021 14:50:15

 

Por Chico Anes

Eu sou o tipo de sujeito que a sombra é mais atraente que a substância. Duro admitir isso, mas a projeção plana e escura do meu rosto no chão ganharia dos traços secos refletidos num espelho em qualquer concurso sério de beleza. E, quer saber? A maioria dos detetives particulares que eu conheço têm sombras muito mais simpáticas que seus corpos deteriorados pela mistura de cigarro e uísque barato. E se caráter pudesse ser projetado no asfalto sujo eu só veria a penumbra escondendo meus antigos casos que só confirmam a podridão desta cidade. Sem dúvida, minha sombra é o melhor de mim. Eu só não poderia saber que, no final, ela me mataria.

O ano é 1938. São Paulo. E eu sou conhecido pelos policiais, dançarinas de cabaré e pilantras daqui como Nico “Grilo Falante” Silva. E não é por que eu falo muito, não. Ao contrário. Mas é que eu faço qualquer bandido tagarelar como um   papagaio psicótico com minha Smith & Wesson .38 e um bom soco inglês.

1938… Posso dizer até então este estava sendo um ano e tanto! Algumas tristezas, é verdade. Tristeza do tipo a Itália ter levado a taça de campeã da Copa do Mundo. E algumas piadas, como Hitler ter sido eleito o “Homem do Ano” pela Times. Mas também alguns momentos impagáveis. Quase me borrei de tanto rir quando soube da histeria coletiva dos americanos após a transmissão radiofônica da Guerra dos Mundos. Orson Welles! Que figura! O sujeito conseguiu enganar metade dos Estados Unidos com uma historinha de discos voadores! Ele daria um político e tanto aqui no Brasil. E os gringos se assustando com extraterrestres enquanto Hitler dá todas as mostras que deseja limpar o pé no mapa da Europa!

Marcianos...

Eu agradeceria aos cowboys pela piada do ano, caso não tivesse eu mesmo uma trama alienígena pessoal, bem aqui debaixo dos meus pés, seguindo-me dia e noite. E se eu pareço tranquilo com isso, esqueça. Fazer piadas com situações de perigo aliviam a pressão em trabalhos como o meu. O fato é que essa coisa que me persegue não está querendo apenas me observar enquanto resolvo um caso de chantagem ou dou consolo a uma cliente traída pelo marido; a coisa quer agarrar meu pescoço e torcê-lo até que eu possa ver o bolso de trás da minha própria calça!

O pesadelo começou depois do caso Sacramiento.

No meu ramo, às vezes as coisas fogem de controle. Diabos se não! O caso Sacramiento saiu totalmente de controle. Era para ser um caso como dezenas de outros. Mas o fato é que eu tive que fazer três buracos com minha Smith & Wesson .38 para arejar a cabeça daquele cafetãozinho barato antes que o filho da mãe me partisse ao meio com um machado; o mesmo machado que ele costumava usar para castigar suas funcionárias. Fui contratado pelo irmão de uma das prostitutas que o assassino havia trinchado. A ideia era surpreender o filho da mãe enquanto ele fechava o caixa e contava os lucros da noite depois de os clientes terem deixado o cabaré, enfiar as algemas nos seus pulsos e arrastá-lo pelos cabelos até a cadeia mais próxima. Mas, como eu disse, às vezes as coisas fogem totalmente do controle. Quem poderia adivinhar que ele guardava o machado atrás do balcão? O otário só se esqueceu que balas costumam ser bem mais rápidas que uma arma de pau. Três tiros certeiros e acabou-se a carreira de matador de mulheres daquele cafetão.

Enquanto o maldito estrebuchava e se preparava para conhecer o inferno, uma velha vestindo um poncho desgastado saiu das sombras. Aquela bruxa apareceu tão inesperadamente que, por pouco, também ela não ganha os próprios furos extras na testa. A velha se agachou ao lado do sujeito, esperou até que ele virasse defunto e passou-lhe a mão na testa ensangüentada. Levantou-se, veio andando em minha direção murmurando uma reza estranha, fitando-me com olhos arregalados, negros, tal e qual os ocos vazios de uma caveira. Antes que eu pudesse reagir ela pulou, arisca como gata velha, batendo em meu pescoço com a mão vermelha de sangue. Jamais poderia imaginar que aquelas pernas raquíticas fossem tão rápidas! Achei que ela me tivesse rasgado uma veia. Derrubei a vovó com uma coronhada no queixo e cambaleei até a janela, procurando por ar fresco que me acalmasse os nervos. Soube depois que ela era da mãe do bandido que apaguei. Acredite, tudo neste mundo tem uma mãe!

Cheguei em casa com uma dor de cabeça dos infernos. Até parecia ter sido eu quem havia levado três balaços na testa. Enchi o copo de Bourbon — os cowboys  podem até se borrarem com transmissões de rádio e marcianos, mas fazem um uísque danado de bom! Tive de largar a bebida depois do primeiro trago. Corri para o banheiro. Aliviei as tripas pela boca.  Posso dizer que não me lembro de ter vomitado tanto desde que minha querida madrasta me entupiu de leite azedo quando eu ainda usava fraldas. Olhei no espelho para ver se o bigode ainda continuava decorando meu rosto ou tinha escorrido ralo abaixo, junto com alguns mil-réis investido em dois ou três copos de conhaque lá no Rosemberg´s Bar antes do encontro com o cafetão. Minha obra prima ainda estava lá, um pouco suja, é verdade, mas ainda estava lá, bem debaixo do nariz. Porém, havia algo mais. Algo que definitivamente não deveria estar onde estava. Foi quando vi a mão da velha. Carimbada no meu pescoço em tinta vermelha; o sangue daquele escroto lenhador de mulheres. Lá estava a garra, recurva e com unhas salientes. Garras de uma ave de rapina, agarrando minha goela como se eu fosse um rato, bem apertado, para não deixar escapar uma última refeição num deserto morto.

A Companhia de Águas e Esgoto da capital faturou comigo naquela noite. Passei metade da madrugada tentando tirar aquela pintura macabra da pele, e, depois que consegui, passei a outra metade tentando lavar sua memória com uísque.

Esqueci o incidente. O tempo seguiu. Parecia que a vida corria normalmente. Mas é exatamente quando tudo parece ir bem que um parafuso afrouxa, um dente da corrente se quebra, uma bala do tambor falha na hora do disparo e… Bem, a coisa  toda desanda rapidamente.

Quem primeiro notou não fui eu.

A coisa desandou uma semana após o caso Sacramiento, quando cheguei ao escritório e ia passando direto pela mesa da senhorita Susy — você vai ganhar feio se apostar que Susy não era o nome verdadeiro da minha secretária. Mas, quem diabos precisa de certidão de nascimento para empregar uma garota com pernas magníficas e que sabe usar os dedos numa máquina datilográfica?

A senhorita Susy me fez parar com um comentário inusitado:

— Ei, Nico, onde você arrumou essa outra sombra?

Sombra? Outra sombra? No meu ramo, a gente aprende a não responder de imediato perguntas feitas à queima roupa como aquela disparada pela senhorita pernas magníficas. Parei, tirei o chapéu, mirei o cabideiro ao lado da foto de Getúlio e ameacei atirar meu elegante Sarkis de feltro como se atiram argolas em caixas de fósforos nos parques de quermesse. Desisti. A distância podia me fazer errar, e o que eu tinha a dizer não combinava nada com uma postura inclinada, com os fundilhos expostos, recuperando o chapéu no chão. Voltei com o Sarkis para a cabeça e devolvi:

— Doçura, se quiser ver outra sombra projetada bem aqui embaixo vai ter de tirar as mãos do teclado e vir me dar uma recepção mais calorosa que…

— Estou falando sério, Nico. — ela interrompeu minha piadinha, e então percebi que a coisa ia desandar. — Já vi muito troço estranho, mas homem de duas sombras é a primeira vez!

Olhei para baixo. A senhorita Susy tinha razão. Ao lado da minha sombra original se esticava outra, quase do mesmo tamanho, acompanhando meus movimentos com naturalidade.

— Isso não é nada, doçura — retruquei, sem muita convicção. Apenas reflexos fora do prumo. Aceite meu conselho, se não quiser ver uma segunda sombra de verdade, volte com seus dedinhos para a máquina.

Não esperei pela resposta. Pulei em minha sala e tranquei a porta. Duas coisas me incomodavam.  Anos rastejando atrás de pistas apagadas e tentando encontrar pontas do novelo numa investigação faz com que até o mais imbecil dos detetives crie certo hábito: o de enxergar quando as coisas estão — como foi que eu havia dito mesmo dos reflexos? — meio... fora de prumo… Note, o dia estava chuvoso, nublado, então as sombras também deveriam estar! Minha sombra original realmente estava meio apagada, alimentada por um sol ausente. A outra, ao contrário, parecia desfilar num dia de verão: sinistra, bem delineada, indecente. A segunda coisa que reparei — e essa me desagradou mais –, é que a sombra invasora não usava chapéu, e, entre seu queixo e o final da testa, havia três pequenas circunferências perfeitamente desenhadas em luz.

Já disse que em meu ramo às vezes as coisas fogem do controle. Isso foi especialmente verdade nos dias que vieram.

A senhorita pernas magníficas — que, confesso aqui, era senhorita "minhas"  pernas magníficas — chegou ao escritório na manhã seguinte coberta de hematomas. Contou que seu namorado perdera a cabeça e a havia espancado. Ora, eu nem sabia que ela tinha um caso, quanto menos um namorado! Anotei o nome do covarde e fui atrás dele. Descobri que além de bater em mulheres, o cara traficava nas escolas da zona sul. Enfiei-lhe os testículos pelo traseiro. O maricas estaria até hoje tentando recuperar os colhões se não tivesse morrido no processo. Foi uma fatalidade. Depois que mandei um belo chute entre as pernas do cara, ele rolou escada abaixo e quebrou o pescoço. Eu não queria apagar o sujeito, acredite, mas um espancador de mulheres a menos no planeta não iria fazer falta a ninguém. A senhorita Susy me retribuiu o favor com uma impressionante bofetada — mais um talento de seus dedos que descobri tardiamente. Como entender as mulheres? Ela foi embora, em tempo de não ver a terceira sombra crescendo sob meus pés, arremedando meus movimentos, andando como se montasse um cavalo invisível, a cabeça pendendo de um lado para o outro a cada galope.

Sem minha secretária, a vida ficou mais difícil. Tive que me voltar à algumas tarefas do escritório. Fazia tempo que eu não alimentava minha drosera. Não sou um sujeito que fica por aí apreciando a natureza, mas plantas carnívoras são um espetáculo à parte. O reino vegetal mastigando e engolindo o reino animal! Uma inversão de perspectiva estupenda! A mosca grudada nas gotas daquela substância pegajosa, zumbindo e agitando as asinhas, frenética, derrotada. As folhas se fechando, envolvendo o inseto e, pouco a pouco, dissolvendo a presa em enzimas digestivas. Uma bela visão! Quem cultiva uma drosera sabe o que estou dizendo.

Uma semana depois da partida da senhorita Susy, veio o caso dos irmãos Solano. Briga boa! Acabei com um deles explodindo-lhe o corpo com a mesma nitroglicerina que o idiota tentou me despachar para o andar de baixo. O mais novo, vendo o irmão em centenas de pedaços, enlouqueceu e se atirou sobre mim com uma faca de caçador. Foi fácil me desvencilhar e assistir o trouxa despencar da plataforma, o pescoço se enroscando num vão de correntes usadas sabe-se lá para quê naquela fábrica abandonada, o barulho da espinha se partindo, corpo balançando inerte, enforcado pela própria falta de juízo.

As duas novas sombras nasceram rapidamente. A primeira delas, um mosaico negro, pedaços quebrados de sombra colados por fiapos de luz. A segunda, balançando centímetros acima de meus pés como se estivesse... flutuando... enforcada.

Depois disso comecei a evitar sair. O grande detetive Nico já não frequentava os bordéis nem dava moedas para os engraxates da Ipiranga em troca de informações quentes. Notícia de primeira página: “Extra! Extra! Nico está acuado, com medo da própria sombra!” — ou das próprias sombras, se preferir. Pode apostar, medo de verdade! Nem no escuro as aberrações me deixavam sossegar. Mesmo sem a luz para formá-las aos meus pés, elas lá estavam. No negrume do quarto, quando minha sombra recolhia-se ao seu mundo misterioso, os quatro simulacros alastravam-se ao redor de mim. E, com o tempo, minha própria sombra deixou de aparecer. Ou ela fugiu dos demônios negros que a cercavam, ou foi digerida por eles. Comecei a me achar o centro de uma flor de corolas negras, uma flor carnívora, autofágica.

Dei férias para meu revólver. Se a cada pessoa que eu despachasse eu ganhasse novas sombras… Bem, eu não queria novas pétalas negras me rodeando.

Mas, no meu ramo, andar sem uma arma é como andar sem calça. E, logo, logo, eu já não estava mais me sentindo nu…

O caso do circo Aurora me colocou frente a frente com um anão que, entre uma apresentação e outra, gostava de jantar espectadores. Persegui o pequeno canibal pelas tendas, mas o filho da mãe, considerando o tamanho das pernas, estava me dando uma canseira inesperada. Ele ia conseguir fugir. Subiu numa grade a fim de alcançar o muro. Atirei. Aceitei a perna do anão que caiu na jaula. Talvez o tiro não o tivesse matado, mas o fato é que o pequeno acabou esmagado por um elefante. Ele ocupou ainda menos espaço no seu último terno — bem menos do que seu alfaiate poderia prever.

Aquela aventura me trouxe mais um companheiro diáfano, mais uma maldita sombra. Vi a pequena sombra nascer como uma verruga.

Esta noite acordei de um pesadelo terrível. Sonhei com a drosera. Sonhei que sua folhagem era negra e um líquido pegajoso, fétido, parecido com o chorume que escorre de cadáveres, manava pelas pétalas em forma de rosácea. Bem no meio, eu me debatia como um inseto idiota, assustado, condenado. As pétalas se fecharam, devagar, saboreando cada movimento do meu corpo, deixando que o líquido viscoso dissolvesse minha pele, colocando meus músculos e carne à mostra, até que meu sangue começasse a fluir e regar suas raízes. Acordei, banhado de suor. Na escuridão do quarto, arranquei minhas roupas, pois tanto o cheiro quanto a umidade me fizeram acreditar que estava realmente molhado pelo líquido asqueroso daquela drosera negra.

Se estou com medo?  Já disse, aposte todas as fichas que sim.

Os gringos? Fazem bem em se borrarem com contos radiofônicos de marcianos invadindo a Terra — sabe-se lá o que pode ser transmitido por ondas invisíveis. Sabe-se lá de onde vêm as sombras alienígenas. Para mim é o fim da linha. Cheguei a essa conclusão irremediável quando vi a sombra anã crescendo como um polegar.

Caminho até minha gaveta particular. Ali só guardo duas armas, a Smith & Wesson .38 e o legítimo Bourbon wiskey do Tenesse. Pego as duas. Abro a garrafa e bebo. Dou cinco tiros em cada uma das sombras. Diabos! Posso jurar que essas malditas sombras se despregaram do chão... Posso jurar que elas começaram a se curvar em minha direção, como as pétalas da drosera. Posso jurar...

Lembro-me da velha do caso Sacramiento,  da sua mão em meu pescoço, vermelha, em tinta sanguínea. Olho a estranha mão de sombras que circunda meu corpo mesmo no negrume da noite. Elas se moveram outra vez. Querem se fechar, como a planta carnívora, agarrando-me, sufocando minha pele, dissolvendo minha razão, derrotando-me na escuridão. Sei que quando dormir de novo essa terrível mão vai se fechar como uma Drosera Negra, digerindo em seu estômago ácido mais um inseto. É isso aí. A Drosera Negra vai digerir Nico “grilo-falante” Silva; o inseto otário da vez.

Tomo mais um gole do Boubon e confiro a carga da minha fiel Smith.

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