Cinzas

15/09/2020 08:00:00

Por Thiago Rossi

 

Do meu caminho de casa até a estação, já não testemunhava mais cores e cantigas de amor, já não via mais fantasias espalhadas em cada canto, e a porta da igreja estava aberta aguardando os pecadores arrependidos das heresias e profanações cometidas na loucura dos dias da festa pagã.

No meu banco costumeiro encontrei um embriagado palhaço entregue por completo aos braços de Morfeu. O homem, que àquela altura era a última evidência viva dos dias de carnaval, era objeto de julgamento dos olhares de quem cruzava a plataforma. Alguns pareciam olhar para aquela figura com saudade, como se ele trouxesse lembranças boas de dias passados. Outros o olhavam com receio, como se ele, a personificação daquela festa de três dias, soubesse das coisas que seus juízes haviam feito. Havia também os que desviavam o olhar, como quem tem vergonha, talvez lembrando de pequenos pecados cometidos ao ver aquele palhaço.

O trem deste dia levaria lembranças de serpentinas e confetes nas suas bagagens, levaria pequenos pecados cometidos e desejos realizados, pequenas vidas de três dias que terminavam cremadas nas cinzas que o padre Estevão distribuiria na igreja e que só seriam comentadas mais uma vez, talvez, nas confissões que seriam feitas ao religioso nos dias vindouros e que receberia suas sentenças em orações e penitências.

Não sentei-me no sétimo banco, mas não fez diferença quando vi que quem eu esperava também não descia do vagão 29. “Quais pecados de carnaval tereis cometido?”, pensei comigo mesmo, já resolvido que os meus deslizes seriam de conhecimento só meu, não devendo ser comentado nem mesmo com o bom pároco da comunidade.

Da estação caminhei até a igreja e depois do sermão me lembrando que ao pó um dia eu voltaria, aguardei o depósito das cinzas em formato de cruz em minha testa. Segundo tia Inês, só poderia lavar a cabeça agora após o terceiro dia, como se cada dia fosse para pagar um dia de folia.

Quebrei o meu jejum após a missa e por um momento pensei ter visto cabelos avermelhados cruzarem uma esquina próxima. Seria meu carnaval ou a espera de meus dias rotineiros? Sem resposta, saí em penitência particular com meus pensamentos.

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Marcelo Miranda
Agencia Qu4tro