Canção do Caminho

08/02/2021 15:01:00 - Atualizado em 08/02/2021 15:04:47

 

Por Gabriel Fernandino.

 

I.

 

Na retina de mineira, o bang-bang é bucólico: é mato ou morro.

 

É preciso, portanto, por muito, navegar o caminho, traspassar a tal pedra no meio desse…

e por que raios (pirilampos e trovões) tanto alvoroço por uma pedra no meio do caminho,

se a estrada é feita dos tais paralelepípedos?

 

Nas botas mineiras, onde em se pisando tudo bate, a geografia emocional é de picos e depressões, os mares de morro e de vivo  o esquisito fiar da vida que, o quão mais longa, mais curta…

 

palmilhar no lombo de si é preciso, apear não! 

 

Sou a razão de ser do caminho, dou-lhe vida e ele caminha suas pedrinhas em mim. Caminho-eu, Eu-caminho: a estrada só ganha vida se caminhante houver.

 

Pelo tanto, então, como dizem lá na terra, sim, bora!

Sisifar nossa pedra do meio do caminho ao cume do morro.

 

II.

 

Vencida a pequena filosofia montanhesa, olho a topografia da minha retina,

vejo que há um pé de carambola defronte, e donde o há, antes havia o araçá.

 

[As goiabinhas nordestinas transmutaram-se em ramalhetes vermelhis intercalados por gordas gotas amarelas e estreladas]

 

Se, assim, o araçá virou caramboleira é indício de que me movi no caminho, sobre certas pedras minha botas bati. Estradar e especular é preciso, entender não.

 

III.

 

A casa é nova e os sonhos da noite anterior velhos, senis, caducados como a morte. Noite estendida ao sem-limite do torpor, e os sonhos, chumbados e massacrantes.

 

Se tão pesados, será que sonhos foram? De quantos cascalhos o inconsciente é feito? Será que caminho, morro enquanto durmo? Vago enquanto sonho morro acima? Decerto, divago. Divagar e sempre.

 

Novas micro e irrelevantes filosofias. Vago-as, trespasso-as também.

Se durmo, se sonho um caminho ou uma rima, parece, não há prece, pedra ou maldição:

 

caminho abaixacima e morro. Onde vou, lá estou, não há fuga de mim, é tudo sim travessia de mim comigo.

 

IV.

 

Amanheço tarde, embora cedo deva ter havido cor no sol que lambeu o sonhado bang-bang  de carambolas, seixos e araçás, a casa nova e todo caminho até o limite do ensolarado ocidente.

 

As tais pequeníssimas e colossais existências para alguém que caminhava e se doirava de sol. Eu não, eu dormia, morria, não era então coisa do mundo dos viventes, eu era, dentro de mim, pedra inerte no caminho.

 

Sem mais tardar, despertei enquanto o dia adormecia.

Recomecei a saltitar e empurrar meus paralelepípedos.

 

“Simbora! Não há hora! De todo jeito, tem jeito!”,

repetem os ímpetos do meu mineiro instinto

(ao passo que pedram cantam pelo desfiladeiro)

  Si quieres cambio verdadero, pues, camina distinto!

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