As coisas que eu não disse

25/03/2021 16:02:00 - Atualizado em 25/03/2021 16:06:23

 

Por Isabella Paolucci

Eu estou escrevendo isso ouvindo aquela mesma canção que costumávamos dançar quando as palavras não se mostravam necessárias, pois estávamos perdidos demais um no outro sob a luz do luar. E quando eu penso nisso, me lembro de como você dizia que meus olhos azuis brilhavam ainda mais do que as estrelas, que eram a única luz que tínhamos naquele grande campo florido, e de como eu sorria, dizendo que tudo aquilo era uma grande mentira.

E nós continuamos dançando por todo o verão, imersos demais para olhar o que acontecia ao nosso redor até que em um momento o clima frio trouxe dúvidas e a necessidade de ir embora. Eu não queria, mas era necessário para que eu pudesse crescer e talvez até alçar vôo, se me permito dizer.

Você ainda escuta as músicas daquela playlist? Você ainda se lembra de qual era a minha favorita? E da trilha sonora do momento em que sucumbimos? Você ainda pensa em mim? Você está lendo isso? Você percebeu que isso é sobre você? Porque ao mesmo tempo em que penso sobre como não quero dar o braço a torcer, uso aquele vestido preto e me lembro de como corremos de mãos dadas para fugir da chuva na noite em que você disse que me amava pela primeira vez.

Agora já não penso muito sobre a nossa triste, linda e trágica história de amor proibido. Éramos quase como Romeu e Julieta e ouvir aquela canção torna impossível não reviver as memórias, e mesmo que eu prefira sufocar a mostrar-me realmente afetada, às vezes tudo transborda pelos meus olhos. É quando eu agradeço por você já não está mais aqui para ver isso ou ouvir todas aquelas coisas que eu nunca disse.

Então eu escrevo agora mentalizando tudo o que eu jamais cheguei a te contar, mentalizando todas as palavras que ficaram presas naquela caixa escondida dentro de meu guarda-roupa. A mesma caixa em que guardo as lembranças de você e o seu cheiro, preso naquele moletom que você me emprestou na noite em que eu vestia apenas uma camiseta e conforme perdemos a noção do tempo, ficou frio demais para caminhar por aquela estrada de terra. Apesar da vestimenta emprestada, você me abraçou por todo o caminho.

Você nunca saberá o que eu tenho a dizer e eu nunca falarei todas essas palavras presas em minha garganta. Nesses momentos me pergunto se você realmente me disse tudo o que queria ou se assim como eu, também guarda uma caixa de verdades que jamais será aberta. Acho que nunca saberei a resposta da mesma forma como você também nunca saberá como eu me senti, como ainda me sinto e os sentimentos que foram deixados para trás.

E talvez seja melhor assim, já que a possibilidade de nos magoarmos é grande considerando a nossa história e toda a nossa paixão impossível - que nem era tão complicada, mas temos a mania de aumentar a proporção das coisas porque torna tudo mais excitante, não é?

Ou talvez algum dia eu me afogue pensando em tudo o que você deveria saber enquanto ouço a nossa canção, agora sozinha. Eu não acho que você a tenha escutado desde que fui embora, já que aquele não era exatamente o seu estilo, mas se um dia você estiver em algum lugar e por acaso ouvir o tão familiar som do violão e aquela voz suave, eu espero que você pense em mim.

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