A mosca

11/11/2020 09:57:00 - Atualizado em 11/11/2020 09:59:06

 

Por Chico Anes.

 

Não estou louco. 

Sei que não. 

Depois de um tempo usando tudo quanto é tipo de droga, sei bem o que é efeito de uma viagem. Isso é real! O que está me acontecendo é real! A inesperada realidade das sombras...

Desta vez eu me ferrei, cumpadi. 

Começou dois dias atrás, quando enfiei na cabeça a ideia de fazer mais uma tatuagem. Queria aumentar a coleção, entende? Como a grana estava curta, tive de procurar um estúdio barato, daqueles sem frescuras, tipo classe B.

E quem procura acha, não é verdade? Eu fui procurar na Internet.  Já me disseram que a Internet é o cardápio virtual do diabo: sua alma por seu vício. Achei uma promoção daquelas! Tão boa quanto é para o peixe uma minhoca no anzol... O anúncio dizia que em comemoração ao aniversário do estabelecimento, o tal estúdio estava oferecendo uma tattoo grátis aos dez primeiros idiotas que ligassem. 

Eu fui o décimo. 

No dia marcado, apesar de eu ter assinado um termo declarando que não estava drogado e nem tinha consumido álcool, cheguei ao estúdio com a cara cheia de conhaque. Não era a minha primeira vez fazendo uma tatuagem. Já tinha sentido na pele, literalmente, o quanto aquilo doía. Tomei umas biritas para segurar a dor. Dizem que quem bebe antes da sessão corre o risco de desmaiar — queda de pressão, entende? Para quem já foi tatuado e experimentou a tortura, melhor correr o risco de apagar e estar amortecido que encarar as agulhas com a cara limpa. 

Achei o lugar meio sujo para um estúdio. Poeirento demais. Coberto de teias de aranha.

Uma mulher esquisita, vestida de negro, veio me atender. Disse a ela que queria tatuar uma mosca. Coisa que desse nojo, entende? Queria uma varejeira tão repulsiva que, quando alguém visse o bicho no meu ombro, iria tentar espantar a coisa. 

A tal da esquisita adorou tanto a idéia que batia palmas, mas achou que eu deveria aproveitar melhor a promoção e fazer uma tatuagem mais elaborada, mais cara. Só uma mosca era desperdiçar a chance, ela havia dito. 

Desperdiçar a chance... Dá vontade de chorar. Como fui idiota! 

A mulher trouxe um álbum de tattoos. Um book muito especial, ela contou, com uma vozinha que parecia ter saído de cordas vocais quebradas. Abriu o book e, na primeira página, estava o desenho mais tosco que eu havia visto: uma aranha preta, coberta de pêlos ralos, de bunda enorme, patas longas e finas. O mais bizarro: a aranha tinha cabeça de gente. A bicho tinha um rosto pálido, de mulher, maquiada como se fosse para um velório, com cabelos negros e lábios finos. Em vez de dentes, um par de ferrões saía da boca daquela coisa, o que dava à tatuagem um aspecto ainda mais abominável. 

Maldito conhaque! Na hora, com a cabeça rodando, achei o desenho espetacular. ES-PE-TA-CU-LAR, entende? Já podia ver a cara de inveja da galera quando eu mostrasse a tattoo. 

Passei para a sala de tortura e a mulher começou a preparar os instrumentos. Eu mesma vou fazer, ela disse quase encostando a boca nojenta no meu ouvido. Pode ficar frio que eu já tatuei essa figura umas cem mil vezes. 

Pouco depois que ela começou a riscar a pele do meu braço, a sala começou a girar mais forte. A dor era terrível. Nenhuma das outras tatuagens que eu tinha feito antes havia doído tanto. Fiquei com vergonha de pedir que ela parasse. Foi quando aconteceu. Sei lá se foi por causa da bebida, ou se pela dor, ou se pelo efeito do ambiente pegajoso; o fato é que eu não pude mais resistir e desmaiei. 

Quando acordei, a desgraçada estava sorrindo. Achei estranho a língua daquela vadia estar azulada — ou já estava antes e eu não tinha notado? Não me lembro.

Levantei da maca com dificuldade enquanto ela apresentava sua obra de arte.  Parecia que o horrível desenho tinha pulado do papel para meu braço. O monstro estava igualzinho, nos mínimos detalhes, à figura do book. Me arrependi na hora. 

Sem o efeito do álcool, aquele negócio tinha a aparência de uma aberração cômica. 

Antes de vestir a camisa, notei uma mancha no ombro. Cheguei mais perto do espelho e lá estava a mosca. Tatuada com perfeição. É mais um brinde da casa, havia dito a maldita mulher, sorrindo com a língua azul para fora. 

Saí o mais rápido que pude, sem nem ao menos agradecer — meu “muito obrigado”, cumpadi, deixou de ser brinde faz muito tempo... 

Cheguei ao meu quarto ainda me sentindo mal. Caí na cama e apaguei. 

Acordei com algo me cutucando o braço. Achei que era a dona da pensão, que costumava entrar sem ser convidada. Mas não havia ninguém. 

Lembrei-me da tatuagem. Era ela que latejava. 

Que conhaque dos infernos! Minha cabeça ainda rodava e doía horrores. 

Fui ao banheiro jogar um pouco de água na pele. A pintura estava borrada de sangue e tinta. Lavei e comecei a examiná-la. Troço horrível! Os olhos ferozes do bicho olhavam diretamente para mim! A tatuadora era realmente uma artista de primeira, pois, em qualquer direção que eu mexia o braço, os olhos da coisa não se desgrudavam dos meus. Em outra ocasião, eu ficaria animado com a tatuagem, já que teria algo realmente exótico para mostrar ao pessoal, mas, na verdade, aquilo me incomodou bastante. Vesti a camisa e voltei para o  quarto. Cai na cama e apaguei. 

Acordei na manhã seguinte, um pouco melhor. Tomei um banho e, enquanto enxugava o braço, senti uma ferroada daquelas de fazer chorar. Balancei a toalha, pronto para esmagar a puta da abelha que havia me sacaneado. Nada de abelha nem de bicho nenhum. Examinei a tatuagem. Uma gota de sangue crescia bem debaixo do ferrão da coisa. Meu estômago embrulhou; parte de mim começava a acreditar que aquilo poderia ter sido feito pela aranha com cabeça de mulher. Limpei o sangue com os olhos do bicho me encarando. 

O mal-estar do dia anterior tinha voltado. Fui para a cama, decidido tornar a dormir. Não consegui relaxar. O braço doía muito e a coceira era de enlouquecer. Peguei um copo com água fria e joguei na tatuagem. Que delícia! Mas, definitivamente, a coisa não gostava de água. Senti outra vez a dor profunda da ferroada. Comecei a ficar assustado. 

A coceira era insuportável. Parecia que a aranha estava se movendo em meu braço, raspando as oito patas cheias de aguilhões em minha pele. Mas... Opa! Não é que pensei ter visto a coisa se mover! Tentei me lembrar se havia misturado alguma droga no conhaque. Não. A birita estava limpa. Não era alucinação! 

Joguei mais água no braço, dessa vez só para tirar a prova. Todo meu corpo se arrepiou; o medo fez disparar meu coração: a tatuagem tornou a me picar! 

Não conseguia pensar direito. A sensação de vertigem não me largava. Fiquei deitado a manhã inteira, sendo atormentado pela coceira que me subia pelo braço. 

Subia pelo braço... 

Era isso. A coisa estava realmente se movendo. Fixei os olhos nela e esperei, com um terror orgânico, a comprovação da minha suspeita. 

Meia hora. Uma hora. Duas horas... 

Nem eu tirei os olhos da tatuagem, nem ela tirou os olhos de mim. 

Mexeu! Tive certeza! 

Ah, que horror! A coisa tinha se mexido! 

Por mais improvável que fosse aquilo, a aranha estava subindo pelo meu braço! 

Corri para o banheiro, peguei o sabonete e esfreguei o bicho com força. A cada esfregão, uma picada. Mas não desisti. Esfreguei, esfreguei, esfreguei. Primeiro com sabão, depois com bucha, e por fim com as unhas. Mas, claro, não adiantou. Tatuagens são para sempre, cumpadi. 

A noite chegou e eu não dormi. Acompanhava a aranha escalar meu braço. 

Que diabos era aquilo? O que ela queria? 

Entorpecido pelo cansaço, me veio a idéia: a mosca! 

Era isso! Ela queria a mosca! Aranhas comem moscas, não é mesmo?

Quase pulei de felicidade. Acreditei, em meu delírio, que a aranha, depois que alcançasse a mosca, finalmente pararia de me escalar. 

Esperei. 

A coisa subiu. 

Continuou subindo. Roçando minha pele. 

Chegou até a mosca. Fiquei com pena do inseto. Imaginei que ele seria devorado pelo monstro de cabeça humana, e que, de alguma maneira, aquela pobre mosquinha sentiria muita dor. 

Mas, não! 

A coisa passou pela mosca sem tocá-la e continuou a escalada. 

Droga! 

O que faço agora? 

Olho mais de perto. 

Ah, não! 

Como pude não notar antes! 

Descubro, horrorizado, que o rosto da aranha é o mesmo da mulher que me tatuou. A mesma cara branca, os mesmos lábios finos. 

A coisa está sorrindo. 

Pego uma lixa e, sem dar a mínima para a dor, começo a raspar a tatuagem. 

Não dá! Tenho de parar. Dói demais! Desta vez, a ferroada me faz cambalear. Parece que feriu meus ossos. Um filete de sangue escorre pelo meu ombro. 

Não há o que fazer; só esperar. 

Mas esperar o quê? 

Minha cabeça arde. 

Gira. 

Ah, meu Deus! 

Agora sei! 

Ela caminha em direção ao meu pescoço! 

O monstro rasteja em direção ao meu pescoço!

Como se chama aquela veia mesmo? 

Procuro na internet; o cardápio virtual do diabo. Claro! Jugular! 

É isso, ela quer minha jugular! 

Não estou louco. Não estou, não! Ela vai sugar meu sangue. Sugar meu sangue. Vai começar a se encher, encher, saindo do seu mundo bidimensional de gravura, criando volume, enquanto eu... Ah! Que merda! Eu vou secar, vou perder massa, solidez, tridimensionalidade, até ficar plano, achatado, e me transformar numa tatuagem no corpo do monstro.

Ah! Droga! Pensei que aquela coisa planejasse comer a mosca tatuada em meu ombro. Mas, não! A verdadeira mosca, presa e se debatendo numa teia feita com a própria pele, sou eu!

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