A maleta

19/01/2021 11:08:00 - Atualizado em 25/01/2021 11:17:26

 

Por Isabella Paolucci

 

Eu ocasionalmente penso a respeito daquele garoto que uma vez conheci. Ainda que não me lembre seu nome, acho que jamais me esquecerei da maneira como seus olhos brilhavam tão intensamente quanto as estrelas, refletindo as milhares de luzes se acendendo em sua cabeça, sempre cheia de ideias e sonhos.

Em uma pequena maleta, ele carregava todas as suas aspirações e diferenças, mostrando-as aos outros com todo o carinho que tinha dentro do peito. Não sabia exatamente o motivo, mas aquelas eram suas coisas favoritas em todo o mundo, e o faziam tão feliz que ele sentia a necessidade de compartilhá-las com todos os outros. Ele não era uma pessoa egoísta, muito pelo contrário, gostava tanto de ver todos ao seu redor alegres que não se importava nem um pouco de compartilhar tudo aquilo que lhe era tão precioso. Se o fazia sorrir, com certeza faria os outros também, certo?

Não, não exatamente.

Nem todos estavam prontos para admirar tamanha magnitude havia naquele sentimento ou ao menos reconhecer o que ele estava fazendo. Eles simplesmente não entendiam e questionaram tão fervorosamente que o fizeram pensar se era certo sentir todas aquelas coisas. “Você deve crescer e isso significa abandonar todas essas coisas estúpidas. Garotos crescidos não perdem seu tempo com besteiras”, sua mãe lhe disse uma vez após pegá-lo sonhando acordado como sempre.

Foi naquele momento que perguntas a respeito do verdadeiro significado de crescer começaram a rondar a cabeça do pequeno garotinho. Então crescer significava abandonar tudo aquilo? Ele não poderia sonhar? Então por que sempre lhe diziam para trabalhar com algo que gostava para assim alcançar a felicidade? Não fazia sentido, quando, na nova concepção que lhe foi apresentada, crescer era o mesmo que ser infeliz.

Ele resistiu por algum tempo, buscando outras pessoas que pudessem pensar da mesma forma ou até mesmo que lhe dissessem que estava tudo bem ser um sonhador, mas conforme o tempo foi passando, ele decidiu que seria melhor enterrar aquela maleta e seguir seu caminho conforme o que ditavam ser o certo. Fez isso porque a cada dia as feridas de ter seus pequenos tesouros sendo tratados com indiferença o feriam de maneira tão insuportável que ele simplesmente não conseguia ignorar.

Então ele jurou a si mesmo que nunca compartilharia aquilo novamente, estava com medo de se machucar.

Alguns anos se passaram e a infelicidade permanecia constante. Jamais colocou os olhos em sua maleta novamente, ainda que fosse até o lugar onde a havia escondido todos os dias, sentindo seus desejos e aspirações tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe de serem realizados. Gostava de pensar naquele lugar como seu Lake District particular, sua rota de escape, ainda que não fosse de fato fugir.

Até o dia em que encontrou a terra revirada, deixando claro que alguém havia levado sua preciosidade. E ele chorou como faria aquela criança que um dia fora quando seus bens mais importantes foram rejeitados. O que faria? Para onde iria? Qual seria a corda onde se seguraria para manter sua saúde mental? Onde se apoiaria? Ele não sabia, não tinha ideia nem ao menos de onde começaria a procurar ou se algum dia seria capaz de encontrar.

E então choveu e ele agradeceu mentalmente pois dessa forma ninguém seria capaz de ver suas lágrimas, pois naquele mundo em que havia entrado, ainda que não pudesse manter as coisas que o faziam feliz, também não podia demonstrar fraqueza.

E lágrimas eram sinônimo de fraqueza.

Abalado, o agora já crescido menino havia se perdido, seguindo por uma rua escura da qual não fazia ideia de como encontrar a saída - não que se importasse realmente. Mas então o destino resolveu presenteá-lo com a visão de todas aquelas suas coisas brilhantes mais uma vez, nas mãos de um garotinho pequeno que carregava também uma outra maleta igualmente cheia e brilhante.

Sonhos, talvez?

Curioso, ele se aproximou, não se contendo ao perguntar aonde ele havia encontrado e acabando por revelar que todas aquelas coisas eram suas. “Como a encontrou? Eu a escondi em um lugar onde ninguém jamais a encontraria!”, perguntou, recebendo a resposta cabisbaixa do menor: “Eu só estava procurando um lugar para esconder a minha”.

Foi quando ele percebeu que ele não era o único diferente. Ele na verdade era apenas mais um com tantas peculiaridades, buscando se encaixar em um mundo onde qualquer receita diferente da que deve ser apresentada não é considerada correta. Naquela noite, ele percebeu que não queria ser apenas mais um dos tantos que já existiu, queria deixar sua marca e que se lembrassem de si, seja como o garoto sonhador ou apenas como aquele que estava sempre falando besteiras sem sentido. Não se importava mais com o que diriam ou pensariam porque não valeria a pena mudar tanto, abandonar tanto, apenas para caber em um lugar que não o traria felicidade nenhuma.

Porque crescer não precisava significar infelicidade, não se ele não quisesse.

E então ele e o menino juraram que jamais se esconderiam e se orgulhariam pelos sonhos um do outro, se tornando próximos de tal forma que nenhum deles precisava se importar com a opinião alheia, se tornando melhores amigos.

Eu nunca mais o vi, mas trago comigo a certeza de que ele está vivendo sua vida transbordando felicidade enquanto mostra suas verdadeiras cores pelo mundo, o colorindo de maneira tão intensa que aquele arco-íris é capaz de tocar outras pessoas ao redor, da mesma forma como me tocou.

As vezes me pergunto a respeito da minha maleta de sonhos e bens preciosos, será que a mostrei apenas a pessoas dignas? Porque sei que em meu interior já tentei enterrá-la diversas vezes em busca de me encaixar. Mas então conheci o outro menino, o mais novo, e ele me disse que todas aquelas coisas tornam-me quem eu sou agora e que sim, ainda que muitas pessoas se afastem, muitas também se encantarão pelo que eu tenho a oferecer e mostrar e por esse motivo ficarão. Ainda que enfrentem dificuldades, ainda que pareça idiota para os que tentam se encaixar, eles ficarão e assim saberei que é verdadeiro e que essas sim são dignas de ver toda a beleza que trago dentro do meu interior.

 

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