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07/04/2021 10:37:00 - Atualizado em 07/04/2021 10:37:27

 

Por Regina Boratto

 

Dezenove horas. Final de turno. Na recepção do Fleming, mais uma pilha de jornal acaba de aterrissar no balcão. Dona Mirtes acelera o passo e ganha velocidade no corredor principal… As luzes acesas indicam a hora da partida. Dezenas de colaboradores passam por ali e retiram seu exemplar, distraídos. Ponto batido, boa noite e até amanhã dados. Sapatos ecoando pressa e cansaço pelo mármore frio do piso. D. Mirtes tem o rosto quente. E mãos suadas.

O jornal anda cheio de novidades: selos de certificação internacional, aquisição de novos equipamentos de ressonância, reforma da ala pediátrica, técnicas avançadas em cirurgias cardíacas... E o coração de D. Mirtes bate acelerado pela última página.

No dia 12 tinha sido procurada pela moça do jornal... Data marcada na caderneta, em

destaque, junto às contas de maio. Mês das noivas... Mas em vez de véu e grinalda, gravador e câmera fotográfica. Data importante! D. Mirtes tem orgulho de ser a funcionária mais antiga do hospital. Contratada com os primeiros colaboradores, que já não estavam mais por ali…

Na primeira página, a personalidade do mês, homenagem a um dos fundadores da instituição que agora, com certificação internacional, se tornava a mais conceituada do país. Dizem que até a esposa do embaixador francês já se tratara lá. D. Mirtes teve a honra de preparar, com o capricho que se tornou sua marca registrada, a suíte reservada para a embaixatriz. Na impossibilidade de vê-la pessoalmente, deixou um raminho de sempre-vivas envolto em laço dourado, na cabeceira da cama, na esperança de tê-la por perto.

Das páginas do jornal saltavam premiações. Uma delas caiu bem no colo de D. Mirtes: na página dois, uma foto do Dr. Jaime exalava carisma e juventude, contrastando com as cenas do dia a dia, cheias de resmungos por todos os lados do jaleco. Pensou no doutor, agora maduro, e seus prêmios... Onde tinha ido parar aquele sorriso?

O sorriso de D. Mirtes estaria na última folha... mas não queria chegar lá tão depressa. Melhor degustar cada uma delas e sentir a emoção de encontrar a página que seria só dela, como a moça do jornal tinha dito. A matéria sobre a funcionária mais antiga do hospital! Com fotos das várias fases e toda sua trajetória, desde os primeiros dias, com o uniforme novinho, até a conquista da certificação, celebrado com a equipe das camareiras e o corpo clínico, em foto histórica. O mármore da recepção tanto reluzia de limpeza quanto sua alma de orgulho naquele dia, lembrou-se.

E a última página a aguardava. Quanto tempo havia esperado por ela... As madrugadas frias no ponto de ônibus, o peso dos fins de expediente, os retornos além do horário, já com a cidade tomada pela escuridão... Quantas viagens teria feito naqueles quase trinta anos? E quão longe poderia ir se somasse todo aquele vai e vem? Tantos quilômetros talvez a levasse até a casa da embaixatriz, lá do outro lado do continente…

Na penúltima página, as participações em congressos iam cobrindo, vibrantes, os espaços em branco. Um grupo de jovens doutores exibia felicidades inteiras diante de um castelo na neve. Como os reis das histórias que contava para Silvia Renata, a neta com nome de rainha.

Finalmente, com o coração acelerado e as mãos trêmulas, D. Mirtes avista a última página. No canto inferior direito, uma pequena foto da ‘moça da limpeza’ e, ao lado, algumas poucas palavras sobre a funcionária mais antiga do hospital.

D. Mirtes se apressou em lê-las e tratou de correr para não perder o 9112, que ia passar às 19h15. Queria chegar a tempo de descongelar a torta que preparou para a ocasião. Abriria o vinho que ganhou no Natal e guardou, bem guardadinho, para um dia especial. Ele, enfim, tinha chegado. Comemoraria, com a neta, o marido e a filha, aquele dia tão importante. Sem castelo na neve e nobres condecorações. As poucas palavras na última página - sua pequena honraria - eram suficientes para garantir o momento de glória. Naquela noite, a pequena casa na rua de terra ia estar repleta das palavras que não couberam no jornal - orgulho, gratidão, reconhecimento, dedicação, felicidade...

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