24 horas com Amanda

30/07/2020 07:38:00 - Atualizado em 30/07/2020 07:44:33

 

Por Regina Boratto

Amanda vivia na pequena chácara, às margens da BR 040, na gelada Serra da Mantiqueira. A mãe já não tinha mais leite, e Amanda e seus irmãos se alimentavam das sobras das frutas que não podiam ser vendidas. Dependia da boa vontade dos agricultores, que alimentavam os cães, sempre à espera de alguma fruta passada, amassada ou provada por passarinhos.

 

Da ninhada de seis filhotes, todos de pelos brancos e olhos azuis, Amanda era a única que ainda não tinha encontrado um dono. Brincava com o último dos irmãos, num pequeno cercado de arame. O agitado filhote tentava sair por uma das aberturas da cerca, amassando as pequenas orelhas brancas... Seu corpo de bola de neve jamais passaria pela minúscula abertura, mas Amanda, obstinada, esforçava-se para ultrapassá-la. Com o pescoço preso aos fios, empurrava o arame num frenético vai e vem, seguindo firme na empreitada. O irmão a imitava, mas percebendo a dificuldade da travessia, desistia. Depois de muitas tentativas, cavou a terra por baixo da cerca, por onde escapuliu, deixando a bola de neve salpicada de marrom. E pulou radiante, exibindo orgulhosamente sua conquista.

 

Nessa escapulida, aproximou-se. De perto, percebi seu afeto e uma pequena ferida no olho direito. Talvez por isso tivessem preferido os irmãos a ela, que nem parecia se importar. Mas como deixá-la ali, sem família, sem cuidados... com as frutas estragadas e o olho machucado? Melhor seria levá-la para a cidade. Lá poderia ser examinada por um veterinário e levada para adoção responsável. Um bom dono cuidaria de seus olhos e seus caprichos.

 

Os produtores aprovaram a ideia e logo providenciaram a caixa para transportá-la. Fizemos furinhos no papelão grosso, conseguimos uma corda para o lacre e forramos a embalagem para que a viagem fosse segura e confortável. Preparativos prontos, empreendemos nossa jornada pela 040, bastante movimentada naquela tarde de sexta-feira.

 

Mal partimos e Amanda, no banco do passageiro, já havia desfeito o laço da corda e forçava a cabeça para fora da caixa. Imaginei o bichinho escapando e pulando pelo carro, mordendo sapatos, indo para debaixo dos pedais. A viagem foi ficando tensa...  Enquanto a mão esquerda segurava firme o volante, a direita tentava devolver Amanda para a caixa – sem sucesso. A obstinação era a marca registrada daquele filhote.

 

Mais adiante, uma pausa na viagem para nova acomodação na caixa. Bastava fechar as abas e amarrá-las bem forte com a corda já mastigada. De volta à estrada, em meio a caminhões pesados e motoristas afoitos, seguimos com o mesmo problema... Amanda, com seus dentes de filhote afiados, roía a corda e, em segundos, metade do corpo já estava novamente fora da caixa.  Não demoraria muito para assumir o comando do carro.

 

Com muito esforço e pouca velocidade conseguimos, finalmente, alcançar a cidade. Na clínica veterinária, a bolinha branca de olhos azuis atraiu todas as atenções e carinhos. Tiramos fotos para registrar o encontro com aquele pequeno, agitado e cativante ser! Dalí iria direto para a adoção. Mas quem conseguiria nos separar naquele momento? Estava decidido: se não podíamos adotá-la, ao menos passaríamos aquele dia em sua companhia. Cheguei em casa com Amanda no colo.

 

Em nosso pequeno apartamento, Amanda fez pose para mais fotos, saltitou pelos cômodos, lambeu nossos rostos e foi cativando o restante da família. Improvisamos um mini dormitório na despensa. Forramos o piso com jornais para deixá-lo aquecido, transformamos toalhas em cobertores e providenciamos água e ração. No dia seguinte, haveria uma feira de adoção de filhotes no centro da cidade. Era a chance de encontrar um lar definitivo para Amanda, a linda Amanda de olhos azuis.

 

Excitada com tantas novidades – viagens, flashes, abrigos inusitados – Amanda dormiu apenas até o meio da noite. Os gritos agudos que acordaram os vizinhos nos tiraram da cama naquela noite de inverno em que os termômetros marcavam sete graus! No auge da madrugada, Amanda era pura energia! Mordeu chinelos, rasgou jornais, virou o pote de água, derrubou vassouras e espalhou ração por todo o cômodo. Nada a detinha...  nem afagos, nem cobertas, nem o colo quentinho. Amanda queria brincar... E passou o resto da madrugada saltitando pelo apartamento até a lua congelar e o dia amanhecer.

 

No sábado que custou a chegar, a feira de filhotes era um tumulto só – crianças agitadas, pais aflitos, curiosos aglomerados em torno das gaiolas e bichos disputando ração e brinquedos de borracha. Amanda, obstinadamente sedutora, com um laço cor de rosa em volta do pescoço, foi o grande sucesso da feira. Para nosso alívio e pesar, em poucos minutos encontrou uma dona e um novo lar. Em segundos partiu, rumo à nova vida, nos braços da mulher. Deixou pra trás jornais despedaçados, cobertas manchadas, sujeira pelo chão, boas lembranças e algumas lágrimas...   

 

 

Clube dos Literatos
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Marcelo Miranda
Agencia Qu4tro