Chuvas de verão

Foto: Reprodução/Internet.

 

Por: Áurea Vasconcelos Grossi

Uma experiência inusitada… Pura perplexidade…  A chuva começa a cair enquanto os céus se iluminavam com relâmpagos e trombeteavam com fortes trovões. A curiosidade me leva à varanda do oitavo andar sobre a tradicional e bem cuidada avenida Consul Cadar, em BH.  Não mais que de repente, pude vê-la desaparecer, submersa por um caudaloso e violento rio. Sequioso, suas ondas iam, impiedosamente, arrastando carros, motos, árvores, levantando placas do asfalto, pedras e, tudo o mais que, naquele momento, interrompia seu curso voraz. Um pequeno intervalo de calma, promessa de escoamento. Apenas promessa. Logo, um novo recomeço… mais ímpeto.. mais força e mais desordem…

Em meio à incredulidade provocada pelo surpreendente, reconheço pinceladas do inevitável.  Afinal, as chuvas de verão são esperadas sempre ao final do dia e trazem consigo a fama de serem passageiras… No entanto, naquele momento, ela veio cronologicamente correta mas, não tão efêmera e nem tão branda quanto se pode imaginar. O que se constatava ali, era o quanto a natureza enfurecida se torna indomável!

Pasma, vi instalar-se o caos! Sei que não devemos dar aos fatos uma dimensão maior do que eles merecem. Mas não consigo fugirás divagações que este me trouxe. Num lance de segundos, a mente se voltou para a incrível relação “Cosmos e Caos”,  um universo organizado, belo e harmonioso se contrapondo a outro,  inteiramente desarranjado e destruído. “E agora?” é a pergunta que pairava no ar.

Ainda um tanto impactada, vejo que o episódio desta tarde de verão se transforma em uma metáfora diante de nossos olhos, listando sentimentos diversos.

A sucessão de pensamentos começa pela consciência da distância entre o homem e a natureza. Não é possível exigir comportamentos e vivências idênticas para  todos mas,  podemos garantir que uma avaliação individual  sobre quem somos, o que aprendemos e  o que  podemos aplicar no cotidiano,  nos dá a dimensão de nosso compromisso pessoal  para com o planeta.

É uma lição de vida, que nos leva a aceitar os limites humanos e as diferentes formas como são encaradas as responsabilidades de quem as tem para com a natureza. O desafio está em descobrir qual é aparte que nos cabe! O que é um alerta porque “ as marcas que deixamos serão sempre bem maiores do que nós, seja para o bem ou para o mal”.

É uma lição que nos faz entender o quanto seria utópico acreditar que o imprevisível e o impensável  pertencem apenas à esfera da ficção e da fantasia.  Também há um pertencimento ao real e palpável.

É uma lição de humildade porque nele se evidencia nossa fragilidade ao compreender que não somos seres dotados de privilégios que ultrapassam a grandiosidade do universo.

É uma lição de esperança. Este sentimento precioso e indispensável que nos move, nos estimula, nos encoraja e nos faz seguir em frente. E que, deve ter sido a musa inspiradora de Tom Jobim  ao escrever a canção, onde muitos elementos da natureza se associam a um ritmo moto contínuo, numa progressão rumo à ideia de sua anunciada morte. Há uma clara tentativa de, musicalmente, reproduzir o movimento das chuvas do verão, nelas vislumbrando a desejada promessa de vida: É pau, é pedra, é o fim do caminho, / É um resto de toco, é um pouco sozinho, / É um caco de vidro, é a vida, é o sol, / É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol, / É uma cobra, é um pau, é João, é José, / É um espinho na mão, é um corte no pé, / são as águas de março, fechando o verão. / É promessa de vida no teu coração.

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