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Amigo Oculto

 

Por Regina Borato

No escritório abafado pelo calor e a chuva de dezembro, Almira, a datilógrafa, chega esbaforida. Suada e com o rosto brilhando. Detestava aparecer assim diante do pessoal. Sombrinha e bolsa pesada na mão esquerda, sacola com salgados congelados, uma garrafa de vinho barato e uma pequena caixa cintilante na direita. Era dia de amigo oculto no trabalho. Faltavam apenas três dias para o Natal e o escritório entraria em recesso até o próximo dia útil do ano seguinte, 1985. Ficaria onze dias sem companhia para passar as longas vinte e quatro horas de todos os dias. Mas aquele dia era de festa. Muito provavelmente, o seu Natal.

Os irmãos, casados, moravam em outras cidades. As reuniões de família também faleceram com os pais. Sabe como é: filhos, compromissos, esposas e maridos. Marido: só ela não tinha. Com alguma sorte, ganhava cartões. Com um pouco mais, recebia telefonemas. Mas não podia se queixar da gentil senhora do primeiro andar. Mãe de seis e avó de nove, sempre levava um pedaço de bolo que sobrava dos festejos para Almira, que vivia só.

Enfim, aquele era seu dia de festa. E estava preparada: tinha uma blusa nova. Bem larga para disfarçar os quilos a mais que vinham se acumulando com certa pressa. Os sapatos eram os mesmos dos anos anteriores, mas quem ia notar? E ainda estavam pouco usados, já que não saiam muito de casa. Ainda bem que a chuva não tinha estragado o penteado. Ficara horas modelando as mechas castanhas. O laquê ajudava a mantê-las no lugar.

No meio do reboliço, colocou os salgadinhos na copa, o vinho na geladeira e o pó de arroz no rosto. Ah! A caixa cintilante! Gastara quase todo o décimo terceiro naquele presente. Era um delicado broche de libélula cravejado com cristais. Um cristal em cada asa. Sim. Caro sim! Eram de verdade. Poucos, mas verdadeiros. E embalados numa caixinha rosa cintilante, ornamentada com uma flor de biscuit também rosa. Uma delicadeza… Uma quase joia. Que gostaria de usar, se pudesse comprar duas. Com um marido, se pudesse ter um.

A libélula voaria para a sortuda Helena Cristina, a única atraente das quatro datilógrafas. Bela, bem vestida e casada! E tinha programas nos fins de semana… que Almira gostaria de fazer, se pudesse.

Conversavam todos os dias, mas os parágrafos não ultrapassavam as paredes do escritório abafado. Os problemas da máquina elétrica de Helena Cristina eram sempre resolvidos por Almira. Os artigos atrasados de Helena Cristina eram sempre finalizados por Almira.

As outras colegas eram jovens. Seriam, em algum tempo, advogadas, médicas, contadoras, esposas e mães. Almira queria ser professora, mas com a parte que lhe coube da herança, só foi possível ter um quarto e sala, lá para os lados da estação ferroviária. Não um curso superior.

Os rapazes do escritório eram contadores. Sempre ocupados com números, dispunham de pouco tempo ou interesse por palavras. Quase nada se sabia sobre suas vidas pessoais. E Sr. Ramiro, o chefe, que passava os dias trancado em sua sala, isolado. Menos ainda se sabia sobre Sr. Ramiro, embora a aliança denunciasse seu estado civil. Claro, casado!

Naquele dia de amigo oculto haveria conversas, salgadinhos, vinhos e, quem sabe, até risadas… E mais: presentes! E fizera questão de escolher o melhor para sua amiga sortuda, He-le-na Cris-ti-na!

Faltando uma hora e meia para o expediente se encerrar, Sr. Ramiro saiu do isolamento para anunciar a festa, com alguns agradecimentos. Fizeram breve oração e partiram para tira-gostos e… presentes!

Os colegas, um a um, davam pistas para os demais adivinharem quem seria o amigo oculto. Os presenteados recebiam, além da surpresa, um distante abraço. Assim se seguiu até chegar a vez de Almira. Ao ouvir seu nome, limpou as mãos engorduradas de fritura e seguiu com o coração disparado para receber sua prenda. Por uma dessas coincidências do destino, a mesma Helena Cristina havia sorteado Almira na brincadeira. Ao abrir o pacote verde, com um laço frouxo de fita, gritaram aos olhos de Almira dois panos de prato. Com flores tropicais estampadas e acabamento em crochê na barra. Sua visão embaçou.

– “Feitos por mim”, bradou Helena Cristina, com um sorriso amarelo.

Os segundos seguintes se passaram em silêncio. Os panos de prato na mão. Os olhos fixos no embrulho amarrotado. A música passou a um ruído estranho. Mais estranho que a etiqueta made in China dos panos de prato. Em meio a pensamentos atordoados, surgiram duas ideias :retribuir o sorriso amarelo de Helena Cristina ou correr dali e nunca mais parar.

Decidiu correr. Mas, antes, num ato de fúria, atirou os panos de prato ao chão. Transformaram-se em panos de chão. Olhos arregalados por todos os lados e um salgado caído perto do pé. Com seus sapatos com cara de novo, esmagou-o junto aos panos. Olhos arregalados e panos engordurados…

E arrancou das mãos trêmulas de Helena Cristina, com unhas e anéis perfeitos, a valiosa caixa cintilante. E, sem se importar com sussurros, vinhos, bebidas coloridas e bandejas, saiu sem olhar para os colegas. Nem mesmo para Sr. Ramiro.

Desceu as escadas com pressa. Na rua mesmo tirou da caixa rosada o broche. A libélula pousou suave bem na gola da blusa nova, fazendo-a brilhar. Havia deixado a sombrinha no escritório e caminhou sob a chuva fina. Primeiro bem rápido. Depois, devagar. A chuva apertou e fez escorrer o laquê, desfazendo todo o penteado. Almira não apertou o passo nem ajeitou o cabelo. Olhou para o alto, deixando as águas lavarem o pó de arroz… Continuou a caminhar até sentir os pés anestesiados e o corpo flutuar. Poderia ir aonde quisesse. Agora tinha ganhado asas – com um cristal em cada uma delas!

 

Sobre a autora

Regina Maria Boratto Cunningham é publicitária e jornalista pela PUC-MG e pós-graduada em marketing. Trabalhou em agências de publicidade e assessorias de imprensa. em Barbacena, atuou em editoras universitárias (Centro de Publicação da Unipac e Eduemg – Editora da Universidade do Estado de MG). atualmente é redatora e revisora free-lancer e autora de livros infantis. Em 2016 venceu o concurso de literatura infantil “Matilde Rosa Araújo” em Portugal, onde teve seu primeiro livro publicado (Editora Caminho). No ano anterior, recebeu menção honrosa no mesmo concurso, com a obra “Dona Girafa quer conversar”. No Brasil, publicou “A Menina Reclamona” pela Editora Tagarela. os animais são os protagonistas favoritos de suas histórias…

 

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