• Bruxismo: ranger os dentes à noite é só estresse?

    11/06/2026

    *Por: Flávio Geraldo de Araújo – Cirurgião-dentista

    Foto: Canva

    Ranger ou apertar os dentes, principalmente à noite, é algo muito mais comum do que se imagina. Muitas pessoas só descobrem que fazem isso quando alguém comenta que ouve o som durante o sono ou quando o dentista percebe sinais de desgaste nos dentes. A primeira explicação que costuma vir à cabeça é: “deve ser estresse”. E, de fato, o estresse tem um papel importante. Mas o bruxismo não se resume a isso.

    O bruxismo é um hábito involuntário, em que a pessoa aperta ou range os dentes, geralmente sem perceber. Isso pode acontecer durante o sono (bruxismo do sono) ou durante o dia (muitas vezes em situações de concentração, ansiedade ou tensão). Ele não é apenas um “vício” ou mania; é considerado um distúrbio de movimento, muitas vezes associado a fatores emocionais, neurológicos, genéticos e até ao padrão de sono.

    As causas são multifatoriais. O estresse e a ansiedade realmente são grandes gatilhos: quando o corpo está tenso, a musculatura da face também tende a ficar mais rígida, e o apertamento dos dentes pode ser uma forma inconsciente de descarregar essa tensão. Porém, outros fatores podem estar envolvidos, como alterações no sono (apneia, por exemplo), uso de alguns medicamentos, consumo excessivo de cafeína, álcool ou nicotina, além de predisposição individual. Antigamente se falava muito em “mordida errada” como causa principal, mas hoje se sabe que o bruxismo é bem mais complexo do que apenas o encaixe dos dentes.

    Os sintomas podem variar bastante. Alguns são bem nítidos, outros mais discretos. Entre os mais comuns estão: dor ou cansaço na musculatura da face ao acordar, sensação de mandíbula “pesada”, dores de cabeça, especialmente na região das têmporas, dor na região da articulação (perto do ouvido), estalos ao abrir ou fechar a boca, dificuldade para abrir a boca completamente e sensibilidade nos dentes. Com o tempo, o ranger repetitivo pode desgastar o esmalte, deixar os dentes mais curtos, planos, com bordas quebradiças e até causar fraturas. Em alguns casos, o paciente não sente dor, mas o desgaste visível denuncia que algo não vai bem.

    O diagnóstico geralmente é feito pelo dentista, por meio da conversa com o paciente e do exame clínico. O profissional observa o padrão de desgaste, avalia a musculatura, a articulação e pergunta sobre sintomas como dor de cabeça, fadiga ao mastigar, travamento ou barulhos na mandíbula e relatos de quem convive com a pessoa. Em situações mais complexas, podem ser solicitados exames complementares ou encaminhamento para outros profissionais, como médicos do sono, fisioterapeutas ou psicólogos, dependendo do quadro.

    Quando se fala em tratamento, é importante entender que, na maioria dos casos, o objetivo não é “curar” o bruxismo de forma mágica, mas controlar seus efeitos e reduzir danos. Uma das ferramentas mais utilizadas é a placa miorrelaxante (ou placa de bruxismo), um dispositivo feito sob medida, usado principalmente à noite. Ela não impede a pessoa de apertar ou ranger, mas protege os dentes do desgaste e ajuda a diminuir a sobrecarga na musculatura e nas articulações.

    Além da placa, muitas vezes é necessário olhar para o quadro como um todo. Isso inclui estratégias para manejo do estresse, higiene do sono (melhorar a qualidade do sono, evitar excesso de telas antes de dormir, reduzir cafeína à noite), exercícios de relaxamento e, em alguns casos, acompanhamento psicológico. Em situações específicas, podem ser indicados medicamentos pelo dentista ou abordagens complementares, sempre com avaliação criteriosa.

    Ignorar o bruxismo pode parecer tentador, principalmente quando não há dor intensa, mas os efeitos a longo prazo podem ser significativos: desgaste dental, fraturas, sensibilidade, alterações na articulação e desconforto constante. Por isso, se você desconfia que range ou aperta os dentes — sente dor ao acordar, nota desgaste, ou alguém já comentou que ouve o barulho à noite — vale procurar um dentista para avaliação.

    Ranger os dentes não é apenas “nervosismo” e muito menos frescura. É um sinal de que algo no corpo e na mente está pedindo atenção. Com diagnóstico correto e tratamento adequado, é possível proteger os dentes, aliviar sintomas e melhorar muito a qualidade de vida, inclusive o sono.

    Flávio Geraldo de Araújo

    Cirurgião-dentista

    www.barbacena.odo.br

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