

Do cultivo à restauração de vidas: produção de azeite ALLEA da Aliança de Misericórdia impulsiona transformação social em Barbacena
21/05/2026
No alto de uma área de aproximadamente 21 hectares em Barbacena, a Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus, da Aliança de Misericórdia, se consolida como um espaço onde o cultivo da oliveira vai muito além da produção agrícola. Ali, o azeite de oliva extravirgem ALLEA, marca própria da Aliança, nasce como fruto de um processo que une fé, trabalho e reconstrução de vidas.
A iniciativa teve início com o plantio das primeiras mudas entre 2015 e 2016, idealizado por Padre João Henrique, fundador da Aliança de Misericórdia, em parceria com benfeitoras italianas, que trouxeram ao Brasil variedades tradicionais como Arbequina, Arbosana e Koroneiki. Atualmente, o sítio conta com cerca de 1.800 pés de oliveira cultivados de forma orgânica.
A primeira colheita aconteceu em 2023, ainda de forma modesta, com cerca de 60 quilos de azeitonas. Já em 2024, a produção cresceu para 160 quilos. Após um intervalo sem colheita em 2025, o ano de 2026 marca um salto significativo, com estimativa de cerca de duas toneladas para colheita.
Produção artesanal e colaborativa
A colheita é feita manualmente e mobiliza diretamente os 35 homens atendidos na Casa de Acolhida mantida no local, que participam das etapas de colheita e seleção dos frutos. Após esse processo, as azeitonas são encaminhadas para extração em uma propriedade parceira em Catas Altas, sendo posteriormente devolvidas ao sítio para envase.
“Os pés das oliveiras estão supercarregados, nunca havíamos visto nada assim, é a primeira vez, então nos sentimos recompensados, todos estes anos lutando e cuidando para que produzissem. Colhemos aproximadamente 2.500kg de azeitonas, é algo muito importante, tanto para mim, como também em relação aos acolhidos, porque se dedicaram a esta colheita, com muito amor, carinho e desempenho, uma laborterapia que nos ajuda e agradeço a Deus por esta safra que deu agora.”, afirma Sr. Luis Antonio Macedo, acolhido e colaborador da Aliança de Misericórdia, responsável pelo olival. A previsão é de que a cada 100kg de olivas extraídas resulte em 10 litros de azeite, dependendo do tipo de cada uma.
O azeite ALLEA produzido é extravirgem e será comercializado na sede do Sítio e Bazar ALLEA em Barbacena, além da sede administrativa da Aliança de Misericórdia e Igreja Nossa Senhora da Boa Morte, ambas na capital paulista, com toda a renda revertida para a manutenção da própria Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus.
Mais do que um produto, o azeite carrega um diferencial único: ele é resultado direto de um processo de restauração humana.
Casa de Acolhida: reconstrução pela fé e pelo trabalho
A Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus abriga atualmente 35 homens que viveram em situação de rua, muitos deles marcados pela dependência química, alcoolismo e outras vulnerabilidades sociais.
O caminho de recuperação começa ainda nas ruas, por meio da Pastoral promovida pelos missionários da Aliança de Misericórdia, e segue por etapas que incluem acolhimento inicial em uma das Casas de Triagem do Movimento, vida comunitária e um processo estruturado de reconstrução espiritual e humana. A laborterapia, que integra atividades como o cultivo das oliveiras, é parte fundamental desse método.
Sem uso sistemático de medicamentos, a proposta se apoia na espiritualidade vivida diariamente, com momentos de oração, meditação, celebrações e vida comunitária.
O tempo médio de permanência para o caminho de restauração proposto na Casa de Acolhida é de um ano, ao término o acolhido pode fazer voluntariado por seis meses, ou se quiser permanecer na comunidade, entra na fase de reinserção, em torno de dois anos, quando pode trabalhar fora e continuar morando no local.
Nesse contexto, o trabalho no campo ganha um significado profundo.
“Trabalhando nas oliveiras, os dons vão sendo despertados. É como se, ao cuidar da terra, cada um também fosse sendo cuidado por Deus. O fruto que nasce ali fora também começa a nascer dentro deles”, relata Leonardo da Costa Ferreira, coordenador geral da Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus.
Colher frutos por dentro e por fora
Para os acolhidos, participar da produção do azeite representa mais do que aprender uma atividade agrícola, é experimentar pertencimento e dignidade.
“Sou de uma família de sete irmãos e tinha tudo, minha família sempre esteve junto comigo, só que por conta de droga, álcool, de escolhas erradas, fui perdendo. Em consequência disto, fui preso algumas vezes, e na prisão refletia, que tudo o que tinha, não tinha mais, principalmente, a confiança das pessoas que era o que mais doía. Conheci a Aliança e dei o primeiro passo. Aqui tenho vivido um processo muito legal, de conhecimento individual e tenho conquistado tudo o que havia perdido, inclusive, que é o que mais desejo, a confiança das pessoas e da minha família. Vivo na Aliança duas dimensões: a espiritual e o momento de trabalho. Trabalhando na colheita, reflito sobre o fruto, quantos anos demorou para produzir e trago para minha vida. Quanto tempo demorei para aceitar ajuda, a aceitar Jesus e hoje em dia, vejo que minha vida já produz frutos e que possam só aumentar”,compartilha um dos acolhidos, Michael Marcos dos Reis, 31 anos que está há seis meses na Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus.
A experiência também revela talentos e histórias surpreendentes:
“Durante a colheita, um dos acolhidos disse que já sabia trabalhar com produção de azeite. É como se Deus fosse limpando o terreno e revelando aquilo que estava escondido dentro de cada um”, reforça Leonardo da Costa.
Espiritualidade que sustenta o processo
A rotina no sítio é profundamente marcada pela fé cristã. A vida de oração é considerada o alicerce de todo o processo de recuperação, com práticas diárias como meditação da Palavra, Oração do Santo terço, missas e adoração.
A própria oliveira carrega um forte simbolismo espiritual, remetendo ao Monte das Oliveiras, onde Jesus viveu momentos decisivos de oração. No sítio, essa simbologia se traduz em prática concreta: plantar, cuidar e colher tornam-se sinais de perseverança e esperança.
Impacto social e sustentabilidade
O projeto se destaca por unir impacto social e sustentabilidade. Além de contribuir para a manutenção da casa, a produção promove transformação real na vida dos acolhidos.
“É um tempo de colheita. Muitos passaram por aqui, semearam, cuidaram, tanto acolhidos, como consagrados. Hoje contemplamos não só os frutos da terra, mas também os frutos da perseverança e do amor de Deus na vida de cada um”, afirma a coordenação.
O impacto é visível: homens que antes viviam em situação extrema hoje trabalham juntos, constroem vínculos e redescobrem um propósito.
Produção com propósito
Diferente de produtores tradicionais, a Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus não tem como foco o lucro.
“Aqui não existe patrão. O dono é Jesus”, resume Leonardo da Costa Ferreira, coordenador geral da Casa de Acolhida Sagrado Coração de Jesus.
A produção do azeite ALLEA é, assim, um dos braços sustentáveis da missão da Aliança de Misericórdia, um projeto que prova que é possível gerar valor econômico sem perder de vista o valor humano.



